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a casa está vazia por jeff@ig.com.br às 01h34 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]
::SEJA MUITO BEM-VINDO:: Um grupo de seis pessoas chegava, finalmente, à última parte de um passeio que mostrava - por um pequeno valor fixo – um teatro sobre o homem. Como último movimento, o carro com as seis pessoas, que um senhor de barba e bigode muito pretos conduzia puxando lentamente um cavalo, entrava em uma praça que, percebia-se desde muito longe, era ocupada por mendigos.
----#----#----#----#----#----#----#----#----#----#----# ::CASAS QUIETAS CALADAS PELA INVENÇÃO DA LUZ:: As estrelas de ferro e tinta óleo não deixam inventar uma beleza que precisa de explicação por jeff@ig.com.br às 03h25 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]
Um caminhão sai de uma curva de maneira decidida e violentamente interrogadora. Vestida de negro, uma dama inatual aguarda para cruzar a via em direção a um velório. Um homem de cartola fala de maneira muito próxima ao rosto de uma vendedora de pentes. Limpo com um algodão, um dente volta a sangrar continuamente. Um garoto deixa escorregar os pés de um cavalo de madeira e abre um sorriso contrariado. Lentamente, o sangue escorre pelo lado de fora de um vidro. por jeff@ig.com.br às 14h04 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]
::A TONFA MUSICAL:: Lá vou eu dentro de um prédio de andares. Daqui me vejo. Olheiras fundas, a por jeff@ig.com.br às 22h34 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]
::RITME:: Com sentimentos de selvagem júbilo, devo dizer que não tenho nada de especial. Sou um cara bastante baixo e magro, nasci há pouco mais de trinta e dois anos e sou um destes sujeitos que comem num lugar qualquer destas ruas de comércio da cidade, em um dia qualquer, com uma televisão ligada. Não que eu goste. Para mim, tanto faz. Mas acho isso de uma asneira tétrica. Se vocês vieram aqui para me ouvir falar sobre mim, podem tirar o cavalo da chuva e darem às costas agora. Não tenho um pingo de saco para ficar aqui, eu, falando disso. É mortificante. Como se isso tivesse, realmente, importância! O que é que eu sou! É, mesmo, bem provável que, de tanto pensar nisso, eu acabe arrumando alguém para ser: um dócil, um revoltado, um ponderador, um poeta, um arrivista, um demente, o próprio Jesus! Mas também não levo uma vida assim tão fodida. Quero dizer: para escrever a gente termina eliminando as ambigüidades e a possibilidade de uma ojeriza completa... E aí... Aí vocês sabem - acaba indo pra lugares que não iríamos, sequer, apontar. Já li Eliot, Yeats, Keats, o próprio Joyce e os salões de letrinhas. Mas preferiria dizer isso contando que se eu passasse, agora, pela calçada de um cabeleireiro terminaria, com a mais completa certeza, olhando lá dentro. Eles sempre têm uma mulher do tipo que eu gosto lá dentro. Não é um tipo. Assim como, por exemplo: uma loira, de short curto jeans e tamancos brancos combinando com a blusa fina. Mas taí um exemplo que eu adoraria encontrar. Posso até parecer meio ridículo mas consigo sentir até o cheiro de sabonete barato dos braços dela. Comi muitas assim. Só de pensar tenho vontade, mesmo, de bater uma punheta. Que coisa. E, tudo isso para dizer, que eu fico surpreso com a enorme fúria que existe no mundo para se falar, falar e falar. Todo mundo tem o que dizer nas entrevistas, nos ensaios, nas teses, nos romances, no teatro, na dança, no espetáculo plástico. É uma loucura. E eu, essa grama suja e rala entre os dormentes banguelas, que penso que quando leio, escrevo, costuro, de queixo na mão, o que eu sou, como é que vou e de onde eu olho. Por que falam? Por que que há alguma coisa ao invés de nada? Por que? Porque nada disso é mais do que uma maneira de envelhecer e morrer. A festa acabou. É hora de escutar os golpes e pulos do próprio peito. A escola dos justos foi feita pensando-se em poucos. A entrada é larga, ampla, colorida e desacreditada – com o mesmo sem sentido do menino solitário e desenturmado. Tiro de mim um poema, se muito, uma boceta de tamancos brancos, signos e símbolos que soltos e desencontrados perpetuam-se, abertos à cauda, ao escuro, às aventuras do que não se sabe. E isso é mais que um papagaio que assobia acorrentado pela perna? E eu que ainda pensava que o que era mais meu eram essas imagens ruins mas que são, de alguma forma, o que se quer dizer. A gente cai no que quer cair. Essa é a grande verdade. Às vezes um desses sujeitos – desses que “dizem”, e tem muitos, nossa se tem - diz que o ponto alto da alegria é a visão da tragédia. E a gente desmorona. Mas o que ele fez foi só ser visto com a alegria e a tragédia na mesma boca e a gente enxerga já ali uma massa disforme e furiosa – como a própria morte encostada ao teu nome. E no meio de todas essas bocas que falam e falam e falam estamos nós, na iminência do que vamos ser. E isso dá uma dor terrível mas a vontade é de não estragarmos, não impedirmos que aconteça: que nos transformemos em homens e mulheres que jamais voltarão a ter um migalha de compaixão com o que não está pronto e acabado. Sabemos disso. Mas não queremos parar. Passamos a travessa de um lado para o outro da mesa com a capacidade de nos desmancharmos em prantos mas apenas sorrimos, fazemos piadas e rimos. E tudo o que está sobre a mesa é comido e bebido por todos. Todos com os seus eus complexos, cheios de inquietude e moral. por jeff@ig.com.br às 00h50 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]
::UM ASSOBIO PARA VOCÊ DECLAMAR:: Dormia pesadamente – se é que eu posso dizer, assim facilmente, que isso acontecia naquela época – quando senti as duas pontas de um par de sandálias fazendo pressão nas minhas costas. Se bem que acho que não pensei em sandálias mas em um cachorro - já que não era difícil algum também descobrir, já naquela época, que aqui era um bom lugar para dormir. Ah, sim. Pensei nisso. Até porque senti o calor dos pés e, depois, um leve peso que ia aumentando à maneira que (isso era o que devia estar acontecendo) ela devia se curvar bem acima de mim. Ou acho que pensei no cachorro... Sim. Eu não sei. Mas não, de jeito nenhum, não queria me virar para ter a certeza de que era isso e dar a entender que, de alguma forma, entende?, eu estava interessado em saber quem estava ali. Nessa época era bastante freqüente eu não saber quem metia todos os dias a cabeça entre o vão da ponte e as minhas fuças. Na realidade, não sabia que eu podia ficar por dentro disso... Fui percebendo lentamente, devagar, até que percebi tudo. Mas tive de me esforçar. Sabia que eram esses que não conseguem - nunca - esperar para serem descobertos que subiam aqui. Sempre acabavam abanando-se com um livro ou uma folha qualquer bem na frente da sua cara até que você, olhando para um deles, por mais de dez minutos ou mais ainda, já não se agüentando mais, falava se era um maldito de um calor ou o que que estavam sentindo. Sabia disso ainda mais porque eu sempre acabava perguntando. Mas também porque antes dessa época - quando eu tinha descoberto tudo, a descoberta toda - eu procurava me ocupar toda vez que um desses estava para aparecer. Às vezes eles vinham. Às vezes eles não vinham. Mas tinha vezes que vinham. Eu ainda esperava um pouco mais. Aí, quase sempre, eu me limpava com um pouco de cuspe. Eles logo vinham, ficavam um pouco aqui, sentavam por aí e cantavam alguma coisa. Eu pensava que deviam ser chefes em outra freguesia. Mas isso foi depois. Lembro que antes eu me levantava, entrava no banho, passava desodorante, depois perfume, apanhava minha carteira, bonita... Me custou uns duzentos, trezentos... As chaves... Vai saber: acho que trezentos e trinta reais. Crachá, jornal... acho que eu não tinha luvas... Sim. O que eu dava era um beijo nas crianças... Não. As crianças foram depois. Ou eu tinha sonhado com as crianças? Hoje, eu penso que não. Penso que o que acontece é que eu sempre me lembro muito pouco dos sonhos. O problema é que, justamente, quando aqueles, os dois pés nas sandálias, me acordaram, eu estava no meio de um deles - e em um sonho com crianças, muitas crianças, como abelhas. Bem. É claro que nos sonhos a gente sempre está em um lugar que não sabe bem aonde é. Mas sempre sabe que havia uma coisa e também havia isso outro e aí aquilo acontecia e depois tem um lugar que parece que não é mais o mesmo e blá-blá-blá-blá. Isso eu sempre me lembrava. Mas crianças? E era, mesmo, uma dessas que estão sempre chorando nestas pinturas de cinco reais. Já vi muitas destas à venda nos domingos. E essas crianças estão sempre com olho grudado em mim. Preciso esconder-me, com alguma habilidade, porque, se eu não for esperto, lá estão com os dois olhos metidos em mim. Essa era uma criança gorda - como eu nunca tinha visto - e havia um jacaré indo em sua direção. Tinha isso do calor dos pés nas minhas costas e o jacaré correndo e parando como uma pedra. Mas eu pensava que os jacarés são animais de sangue frio e, então... Bem, então, eu acordei dessa forma com aquelas duas sandálias cutucando minhas costas. Acordei o mais silenciosamente que pude, quero dizer. Nem abri os olhos, fiquei completamente quieto, ouvindo cada detalhe e som daquilo, eu mal respirava, eu consigo prender a respiração por um tempo absurdo, é bastante fácil, então, eu percebi, afinal, que eram sandálias e, eram claro, de mulher. Uma mulher com um cheiro bastante bom, aliás. Cheiro é uma coisa que eu gosto. Quando eu descobri que um braço do rio morto corria aqui por perto, cheguei a levar uma cadeira para passar as horas de sol praticamente dentro da água parada. Uma vez eu tentei, mesmo, colocar a cadeira dentro da água mas o meu primeiro pé que afundou no lodo só saiu ao custo de eu deixar lá o meu sapato e eu fiquei com medo de voltar para cá completamente descalço. Poderia dizer que contei quatrocentos ou quinhentos carros passando pela rua enquanto estava quieto, mas não contei nada. A verdade é que ficamos 27 anos, em silêncio, daquela maneira. Vinte e sete anos inteiros até que abruptamente eu me virei e ela lentamente acomodou-se entre minhas pernas, meu casaco e o meu saco escrotal. Mas não ficamos assim todo tempo - se bem que eu acho que ela gostaria. De vez em quando, eu me levanto para buscar uma mexerica. De vez em quando, ela sai para arrumar o cabelo. Sei que toda noite, antes de pegar no sono, eu atiro o meu pé de sapato para longe e ela acha graça, muita, mesmo. Nessa hora do dia ela sempre dá risada. por jeff@ig.com.br às 22h14 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]
::A MESMA ÁRVORE MORTA À BEIRA DO LAGO:: Essas chamadas jornadas heróicas são sempre reveladoras. Um jovem urbano conhecido como Presto resolveu empreender uma fuga a fim de reencontrar as próprias forças depois de ter bebido, a grandes e demorados goles, um elixir sabidamente mágico. Nesta sua travessia, encontrou um amigo, que naquele momento, lhe pareceu especialmente dedicado e bem disposto de saúde. No entanto, acabou por perdê-lo ao entrar numa zona alagadiça e já bastante afastada da cidade. O que logo acabou descobrindo foi um velho ainda muito forte e cego e que, por todo o custo, o seguia, puxado por dois violentos cães, empenhado em prendê-lo ali. Tendo enganado o velho atirando as próprias botas no enorme fosso do vale, o rapaz andou por três dias e três noites. No quarto dia encontrou uma bela jovem que o ajudou a regressar à cidade - cidade que, pode-se dizer, gozava de tranqüilidade e fartura. O jovem Presto, que acaba de casar-se com a bela garota, anunciou na noite de hoje que aguarda sua convocação, assim, à jornada heróica que salvará o lugar de um ser invencível. por jeff@ig.com.br às 22h01 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]
::TÍTULOS POR $ 0,99 CENTAVOS DE DÓLAR!!! - TRATAR AQUI:: #KjKj Perguntou ao Vento Por Que a Gente Só Fala de Atari (vendido rapidamente) #Uma Hora Estoura o Tempo #F...-se o Critério Riff! (vendido mais do que rapidamente) #Falo Como um Demônio Apertando-se Contra Essa Grade #Mostra pra Mim Quem te Chamou de Gordinha Esquema #A Suspeita É de que Letícia Só Queira Ódio #Nina Pinta o Desaparecimento de Flores ou A Princesa da Ilha Desarrumada #Começo a te Esquecer na Solidão do Elevador #Temos um Dia Bonito para Chover #À Medida que a Olhamos, Viva e Terrível, a Aparição Toma Corpo #Sal-de-Frutas com Gelo para Festejar Toda Azia #Corpo de Enterros #Nem se Nota que Não Adianta Nada #Espere que Vou Cortar as Unhas dos Pés #O Destino não Espera Desculpas, Strindberg #Porcos Pintados nos Azulejos do Paraíso (vendido) #Gostaria de Jogar, Dormir ou Ficar um Pouco Triste #O Inferno Não Está lá Essas Coisas #Quem É DSC_0035.jpg, Seu Mentiroso? #Vamos que Vamos - Kafka era um Grande Filhinho da Mãe (vendido) #Um Disco de Ska antes que Molina Morra
OS DEZ PRIMEIROS GANHAM UM LINDO BRINDE DE PRESENTE!
> por jeff@ig.com.br às 13h44 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]
::SÓ NÃO TE DESMORALIZO PORQUE NÃO TENHO DINHEIRO TROCADO:: Um texto precisa ser um espetáculo. Uma dança, uma música engolida pelo escuro e ficar com todo o fôlego de quem lê. Mas não um afobado. Precisa deixar respirar, até respirar junto - o mesmo ar. E, quando menos se esperar, que fantástico, é hora de voltar a brincar. Escuta, ouve: fica tranqüilo porque ele também ri. É o jeito dele mostrar NÃO as duras penas mas esse tipo que chamam ‘número de mágica’. As duras penas vêm depois e pode ser a hora mais comprida; pode ser a hora dos contras (Diabo Está Morto, 'pixado' no muro) e em que ele pode se perder um pouquinho; pode, mesmo, tudo ter lágrima; pode ser a hora em que até volta-se ao começo para entender que tudo é este; pode ser tarde; mas, com certeza, é a hora mais intrigante. Porque depois, delicadamente, passando-lhe a mão pelos ombros, ele vai te conduzir até a bem iluminada porta de saída que, espetacularmente, foi a mesma de entrada. por jeff@ig.com.br às 02h01 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ] ::NOTAS PARA UM PASSATEMPO INACABADO::
Pagamos pelo xerox conforme a placa no fundo da loja. Precisava ter comigo os dias e também os horários de nossos fins de semana, os nomes de todos que iam estar por lá e essas coisas. Por todo o caminho – eram seis ou sete quarteirões para a loja – eu não pensei se tínhamos ou não a tabela. Néscio chafurdava a cada passo um dos bolsos ou sua pasta enquanto a gente ia andando (mas isso ele fazia de qualquer forma) e dizia “sim, sim. tenho a tabela aqui comigo” - como se fosse, mesmo, encontrá-la o quanto antes ou coisa assim. Na verdade, nessa época eu já tinha certeza que a minha sorte tinha alguma coisa presa a esses palhaços idiotas. Quer dizer, eu sempre trabalhava com um otário desses. Às vezes eu não entendia porque eu não me incomodava quando ele ou algum outro cretino se dava mal. Mas era só pensar um pouco. Era bastante fácil na verdade. De qualquer forma, depois de pagarmos pelo xerox, Néscio acabou dizendo que a tabela que eu pedia era outra e não a que ele prendia embaixo do braço enquanto revirava sua pasta dizendo “puxa, essa eu não tenho. Essa não está aqui”. Aquilo me irritou. Não o chamei de cretino na frente da garota da loja. Esperava para quando saíssemos lá fora. Pedi só que a menina me devolvesse o dinheiro. Tinha entregado uma nota de cinco e ela ainda não havia feito o troco e essas coisas e é aí que a história começa. Ela me mostrou uma garrafa de água e disse que, se eu preferisse, poderia pegar duas garrafas, e doces e sei lá o que. Eu ainda não tinha entendido, ou não queria imaginar que era aquilo, mesmo, quando Néscio cortou a porta, indo embora, depois de me apertar a mão - na verdade, eu não percebi Néscio indo embora; acho que, pelo menos, o demente me apertou a mão, pelo menos devia. Encostei no balcão com o dedo apontando para a mocinha e disse à ela que não queria cerveja, água ou o qualquer porra daquela – talvez eu criasse caso por coisa alguma, isso sim, mas, bem, ela que abrisse aquela porcaria daquela gaveta, apanhasse a minha nota e não me chateasse e essas coisas todas. Ela me disse, bastante ocupada em colocar um engradado sobre uma outra caixa, que isso não era possível, que mais algum... Dei um grito teatral e cretino esticando as vogais como se estivesse numa ópera dizendo, numa ópera, mesmo, assim: - Ah! É? É? Pois...”, e ia subindo cada vez mais a voz, “pois eu vou ficar sem minha nota-á porque uma atendente-ê não quer abrir a porcaria de uma gaveta-á e pegar meu dinheiro-ô?”. Ela disse algo mas virando as costas para abrir uma outra caixinha (estava bastante empenhada em arrumar a beleza daquelas caixinhas). “Mais algum doce como de 2?”, foi exatamente isso o que disse para criar alguma confusão... e ela parasse com a história das caixas e coisa assim. Mas que nada. Então, aumentei a voz e comecei, mesmo, a dar uns passinhos pela loja como se tivesse num desses vaudevilles cretinos e essas coisas: “Não tem um gerente nessa loja-á, nesse shopping center-ê, nessa porcaria desse promo center-ê, lixo center-ê?”. Isso parece que a enfureceu porque ela disse que havia, sim, mas que eu não me preocupasse que ela chamaria a segurança para me mostrar. Eu falei que dali não sairia nem a tiro sem a minha nota de cinco. Ela saiu do balcão e discou num telefone, bastante bonito até, para a tal segurança. Estava, realmente, uma pilha. “Sim, um homem gritando aqui dentro da loja e dizendo que não sai. Não, não. Até que é bem calminho mas venha tirá-lo...” e essas coisas todas. Quando desligou, eu disse a ela que reclamaria ao gerente e ao mundo todo o atendimento ruim e o cheiro horrível que tinha aquela loja (e outras cretinices assim) e que reclamaria especialmente de uma funcionária chamada... e tentei ler o nome que estava escrito no crachá dela mas estava difícil pra burro. Vi um L e um I e disse: - Da funcionária Lúcia... Ela soltou um risinho abafado, como esses de criança, como rê rê rê e essas coisas, e passou para o fundo da loja e eu fui atrás dela tentando ler que Diabo de nome era que estava escrito ali e ia dizendo: “você sabe, eu vou fazer uma reclamação especial de você, isso é o que quero dizer. Vou dizer que a funcionária...”, e não conseguia entender o maldito nome que estava escrito no crachá que ela tinha pendurado no pescoço. Ela parou e fez uma pose como se colocasse o dedo na bochecha e fizesse uma boca e uns olhos do tipo sexuais (assim, sabe?) - Meu Deus!, ela era linda! Mas pegou o crachá e levantou a uma altura em que eu pudesse ler seu nome, como se falasse: “É isso?”. Eu tentava, ao máximo, não deixar que ela descobrisse que, sim, era aquilo e falei: pois vou dizer que a funcionária Sono Knoli (que nome. puxa. então, ela tem alguma coisa de japonesa e essas coisas?), que ela foi horrivelmente má e cruel e quis me ver errando pelo mundo sem um tostão no bolso e umas outras coisas cretinas assim e que, se ela não sabia, aquela nota de cinco era o único dinheiro que eu tinha na minha vida. Ela me disse, saindo de trás do balcão novamente e olhando para as caixinhas que ela devia amar: “Não tenho nem isso”. Houve um desses silêncios bastante surpreendentes, desses que vão trazendo uma sugestão atrás da outra, esses silêncios em que você quer encontrar alguma coisa para fazer ou dizer, que acabe com ele mas que, ainda assim, deixe alguma coisa dessa seriedade ou solenidade que ele tem muito mais do que qualquer palavra. Quero dizer, acho que ficamos assim quietos um século. Na verdade, o que eu sentia era uma profunda solidariedade por ela e acredito que era, exatamente, isso o que ela sentia por mim. Eu disse: “Quer ficar com essa nota para você?”. Sabe, essas coisas de que se falarmos sobre nós, nosso romance, é ridículo mas ser falarmos “o cortante amor de Hamlet” é bastante cool... Ah, uma cretinice. Ela era linda e eu a beijei. E, ah, beijei com os olhos fechados até ouvir os passos do chefe da segurança ou alguém assim entrando na loja e o som dele puxando o ar para falar. Mas não falou nada, nem soltou a primeira palavra e essas coisas. por jeff@ig.com.br às 01h46 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]
::ANTES QUE TODOS DESCUBRAM A INCOMPREENSÃO DE DEMIS ROUSSOS::
Pelo número de carros que já se juntava na rua, era bem próximo das seis quando ele chegou e nos encontrou matando o tempo na escada. Chegou dando-nos um valor que, disso nós sabíamos, nós não tínhamos. E ainda assim foi a nossa completa desgraça: tentamos nos apoderar daquela posição! Daquele valor que aquele homem (aquele homem qualquer, às seis horas da tarde de um dia qualquer!) nos deu. Passamos a persegui-lo... até nos transformarmos. E hoje eu vejo que esse era um jogo bem fácil de se cair: estávamos escravizados pela submissão de um homem qualquer ou, muito provavelmente, sobre a nossa própria idéia (como Narciso e o caralho)... A verdade é que a nossa despretensão era de fachada. Naquela época, eu queria pensar como penso hoje sobre o quanto estou sujeito à diversão de um embusteiro desses. Da outra calçada, ele me transforma no que eu nunca fui apenas baixando a cabeça e usando delicadamente a sua preocupação em escolher bem as palavras antes de falar comigo. Hoje, se há uma coisa que importa-me muito é o leitor, passar isso ao leitor. É preciso que se fale coisas desse tipo. Por exemplo, você já percebeu como o leitor é cada vez mais como um pássaro livre? Cada vez mais raro e mais importante? por jeff@ig.com.br às 02h57 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]
::UM LIVRO FÚNEBRE EM MINHA CABEÇA ou TODO MUNDO TEM UM VÍDEO-CASSETE QUEBRADO EM CASA :: Quando chego perto de tocar o ininterrupto, as coisas, que mesmo que por um miserável segundo parecem falar por si só, se penicam e desaparecem. E lá vou eu, na pista de um arremedo do que foi aquilo, seco e sem dar o braço a torcer. Isso é uma situação minha, velha e conhecida. Esses são bons momentos para a terceira pessoa, esse araque, que faz todo o papel literário de um sobretudo visto de costas e duas mãos metidas nos bolsos. E perde-se... olhando o mar, o mar comido pelo escuro. Os erros mais do que aceitos, são recebidos como o rapazinho do correio... de quando ele aparece com um embrulho mais taludinho na mão. A história desenhando-se por caminhos espirituosos, apetitosos, quase vivos em nosso empenho em fazer com que eles continuem indo e indo, se assim permitissem - só que a música não está no ritmo em que se pode quebrá-la mas na dança que chega com ele. Fecundo, ilumina, seiva e enlevo, por exemplo, deixam que algum som de suave e doce se aproxime e seja tirado a dançar. Isso quer dizer, o terror, o encanto, a paura, o orgulho, a culpa, o calor e todo o mais cantam com vozes diferentes lindas canções humanas e inumanas. Meu Deus. Mas eu vou ser sincero. Eu só estou dizendo isso porque há uma história que não faço a menor conta de por onde puxá-la. M. estava na rua para acompanhar uma cena de mau-gosto: o governador iria cortar em praça pública o próprio cabelo. Acho que agora... Bem. Vou tentar ir direto. Um assessor deixou cortarem-lhe o cabelo primeiro para que desse tempo de reunir, e mesmo incitasse a reunião, de pessoas na praça. Uma mistura de mágico e cabeleireiro ateou, então, fogo em torno do rapaz e com os dedos e um pequeno maçarico foi tirando um pouco do cabelo, sei lá. Esse fogo, ou sabe-se lá o que... Não dá. Deixa eu acreditar primeiro nisso. Há textos que não falam, tagarelam - (B.). por jeff@ig.com.br às 22h53 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]
::A PARTILHA DESCOBRIU MANCHAS DE INSETO NAS COSTAS DA TELEVISÃO:: Concordo e me interesso pelo que sai bastante longe de mim. O que diz alguma coisa por mim mas não sobre mim. Não que eu não veja histórias dentro do meu dia e que eu não possa contar mas quero contar algumas delas ao mesmo tempo. Provavelmente descobrir que só me interessaram o brilhante e o detrito. A palavra inusual, para lá de bem fornada, maciça. Os sentimentos confusos corporificados em nomes, tornados tesouros. A metáfora, provavelmente. A descrição com riqueza e vigor estético que faz pouco disso porque não vê numa bela descrição de tirar o fôlego o que quer... O uso das palavras maneja incompatibilidades. Os sentimentos claros nascem dessa aprovação em se machucar. Desarmar-se para o imprevisível mas também para o seguro. A incompreensão que se dissipa sem oferecer nenhuma herança a mais que o reconhecimento de horas e horas de sarna pra se coçar e a descoberta, essa sim, de que o que você mais procura nas páginas dos outros não tem a mesma forma em você – e, se tem, vai correr como o cachorro com a boca aberta atrás do rabo. Então você vê com alguma nitidez que o que você anda procurando forjar será tudo a todos menos seu. E volta-se, assim, a mesma marca zero que causa desespero e esperança. por jeff@ig.com.br às 01h42 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]
::O MUNDO COMEÇA NO TÉRREO:: Senti o desprezo queimando a minha cara quando sorri e dei com a mão para M. e ela devolveu, talvez, a ponta de seu queixo batendo pra baixo. Se eu conseguir sugerir a revolta que potencializa isso, posso chegar perto do que senti. Assim fiquei feliz de verdade quando vi que ela tinha um motivo para ter feito aquilo. Eu vi que ela chorava. Pensei, com uma alegria que eu sei abjeta, que era provável que alguém como a mãe dela tivesse morrido. Mas não quis desconsiderar essa mínima frustração que tinha me agitado. Pelo contrário, achei que seria uma boa brincadeira fingir que não tinha percebido nada. Quando ela empurrou a porta de vidro para entrar, falei como uma piada bizarra: “Que porra de cara de poucos amigos é essa?”. Ela falou, e ao mesmo tempo soluçava pelo nariz, que o... Na verdade, eu entendi só o fim, que foi um (para mim) gongórico “meu tio morreu”. Pela primeira vez, então, eu olhei para ela e ela era um lixo. Devia ter chorado muito. O que tinha, e realmente tinha, de bonita, estava contorcido numa mascara terrível. Ela falou, ainda muito magoada, que o chefe tinha sido um escroto, que tinha se recusado a ajudá-la. Me dispus a ajudar. Me pediu que levasse um negócio para algum lugar... Não ouvi o que era. Mas concordei, claro. Fui vendo-a e ela estava mal, mesmo. Pensei em alguma frase que eu gostaria de ouvir em uma hora assim e falei alguma coisa – dessas coisas que se repetisse agora eu ia parecer apenas um palerma... Mas fui ao lugar em que tinha me pedido para buscar o... Eu não sabia. Eu não sabia o que era. Lá havia um monte de gente conversando com voz baixa, pesarosa. Fiquei minutos em pé, tentando perceber quem eram os parentes dela ali. Descobri um amigo. Puxei-o pelo braço, solenemente. Ele me olhou e recolheu o lábio inferior erguendo a sobrancelha como se dissesse: “é triste, não é?”. Baixei a cabeça – era horrível o cheiro, o ambiente daquilo. Falei, meio entristecido, que tinha encontrado M. e ela precisava retirar algo dali e levar para um outro lugar. Ele me perguntou se M. estava muito abatida. Falei - consciente da minha satisfação: “Ela está um lixo”. por jeff@ig.com.br às 12h24 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ] ::O MAGO LEVANTOU A CARTOLA PROCURANDO ALGUÉM QUE BATESSE DE CABEÇA COM VERGONHA DE TUDO AQUILO:: Um ágil rato se encontrava em um labirinto. Fazendo conta de que se mantinha em um plano de entradas e saídas muito parecidas, circulava apenas por uma parte que considerava pequena - ainda que houvesse dias em que pudesse perceber em seus precisos sentidos que estava muito distante das entradas e saídas que já conhecia. Havia algo em que acreditava e era que se procurasse descobrir por experiência própria qual o tamanho do labirinto, estaria perdido. Tinha essa idéia de que o enorme caos nasce da pequena história.
Download pra Fome de Tudo (N.Z.) e muita fome. por jeff@ig.com.br às 00h34 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ] |
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