foto Marina Wajnsztejn (aka MaWá)




::TUTORIAL PARA ESCREVER POESIA::

“Vi que havia em mim um pensamento
inocente, uma pedra
quando se entra na noite pelo lado onde
há menos gente”
Herberto Helder


"Para ele o rico pastelzinho. Para ela o cheiro de fritura no cabelo"
Dalton Trevisan 


Ao começar, atualize o cache: não faça perguntas - “O que dizer, Drummond?”, “A poesia não vem?”, “A folha em branco?”. Procure trazer de casa a chave. Depois:

1 - Não suspenda a respiração e infernize as rimas fáceis. Para usá-las: costure-as nas costas das mãos. Espere três dias. Em seguida, se ainda sangrarem, use-as todas numa única vez, sem rima.  

2 - Não empenhe personagens que são somente um nome. Lembre-se: antes de chegar até você personagens atravessam o caos, distritos castanhos e esquinas em que os homens não tinham nome/sobrenome e pisavam o chão com dedos de barro. Isso é importante.

3 - Não deixe as palavras encontrarem-se por si. É deselegante não apanhar o adjetivo pela mão e apresentá-lo como alguém interessante ao advérbio ou mesmo ao verbo.
Não acredite na capacidade das palavras de desejarem-se. É só jogo de palavras.

4 - Não imagine alcançar o silêncio com o verso. As imagens são mortas mas vivem em debates efusivos como vizinhas no cotovelo da tarde.  

5 - Não escreva só o que te assombra e escapa, o eco do desconhecido, a serpente e o cubo de água e o inexcedível. Escreva também o que dorme e mastiga. Não há nada mais apropriado para alcançar a obra de arte do que maçanetas e penicos de terracota.

6 – Permita que os resultados mais ou menos felizes sejam alheios. Deixe também ao outro que descubra de qual parte o que fala foi escolhido entre tudo o que está mudo do lado de fora.

7 – As cenas e seus objetos, próprios para ilustrarem o inexprimível, devem sugerir casas em que faltam as colunas e outras sugestões abertas como o corpo vivo, toda a vida, vida inteira, o dia e o mundo.  
 

Poesia é parte do ser entre o fluxo, entre os homens, o presente. Que mais devo dizer, Rilke? Não expulse o sexo, beijos, calcinhas e carnes e tudo o que mais jorra vida. As dívidas e os pagamentos mensais também não e comece escrevendo, apenas para você, o que você nunca publicaria. É provável que, nesse território, você module um pouco a sua voz e nos dê adiante este pouco de estátuas e afrescos, colossos, empresas pelo mar glauco e vísceras queimando que adivinham todas as matemáticas assumidas.


por jeffersonalvesdelima@hotmail às 05h33 [   ]
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Copos de gelo no sonho

Doses de corpo no dolo

Quase queria confessar uma coisa:

- Fechando os olhos e desapiedando a cisma,
prefiro as bicicletas e os bancos de praça.


por jeffersonalvesdelima@hotmail às 03h04 [   ]
[ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]




[ O Tempo, Este de Cabelos Cansados ]



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    ::CHUVA::
    No parapeito baixo
    da janela rosa,
    algumas gotas cantoras
    subiam depois de tocar
    a terra branca e a grama nova.

    Aproveitando o dia claro,
    outras gotas davam à chuva
    aulas de brincadeiras infantis
    girando em torno de si próprias e
    depois deitadas com as horas do meio-dia
    no pequeno jogo de descobrir.

    Com as asas molhadas sob o sol,
    o carteiro assobiava,
    fazendo um bico dentro
    [da caixa de correspondência,
    que era uma sorte
    ninguém saber o que há depois da morte
    se não era bem capaz de aparecer um filha da puta
    dizendo que sabe de que maneira
    se deve viver.

    (Abril / 006)



    ::PÉS PEQUENOS
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    A QUALQUER MOMENTO::

    Alguma coisa já dita antes da Terra:
    Todo o problema é decalcar as palavras da abundância
    O inferno não conhece a fúria como palavra
    O corpo não conhece o sexo como palavra
    O silêncio, o escuro, o tempo,
    o azul, o amarelo e o vermelho,
    pelo que parece,
    não sabem das palavras

    (Abril / 006)


    Jefferson Alves de Lima, 33, jornalista, está a ponto de acreditar que vai dar para concluir o mestrado em Comunicação e Semiótica

    Ou só o do email:jeffersonalvesdelima@hotmail.com