:: DIA::

 

Eu comecei escrevendo essa história de maneiras muito diferentes nos últimos seis anos. Nenhuma delas, naturalmente, me interessou. Claro que – dentro de um período de tempo infinitamente menor - isso já havia acontecido com outras histórias. Mas também parece claro que todas elas (não é isso um romance inacabado?) terminaram me levando a desistir de uma coisa que não encontrava forma.

 

Mas não essa. Por um motivo que vocês logo saberão, essa continuou, insistentemente, ocupando-me. E isso de um tal modo que - como nestas lendas sobre histórias que nos desabam num único fôlego - ela terminou desfilando inteira à minha frente, bastando, mesmo, apenas concentração e calma para fixá-la na página.

 

Até então eu não percebia com clareza que era, justamente, o fato de partir de uma cena real o que me mantinha terrivelmente preso a ela. Talvez seja isso o que um autor como Jung chamava de “histórias que precisamos contar”, histórias que para ele pareciam não pertencer apenas a nós, que as escrevemos. Talvez. De qualquer modo, segue-a como me apareceu agora, depois destes anos. Espero conseguir dividir com vocês a mesma impressão que me causou.

 

J.A.L.

São Paulo, julho de 2008.

 

 

 

**

No dia 13 de dezembro do ano de dois mil e dois eu percebi uma rugosidade bastante incomum logo abaixo do meu queixo.

 

Parado em frente ao espelho, e com pouquíssimos segundos de investigação, eu retirava meu rosto da cabeça como a um plástico, deixando apenas diante de meus olhos uma imagem crua, horrenda e em carne viva.

 

De imediato, por curioso que pareça, aquilo me divertiu. Eu via tanto no tecido mole e viscoso caído no chão do banheiro quanto na imagem vermelha e gordurosa refletida no espelho um grande ar cômico.

 

Logo passei, dessa forma, a agitar-me diante do espelho como se meu rosto ainda estivesse ali e, instantaneamente, pensei em procurar minha mulher para observar a sua surpresa diante daquela situação – sem dúvida alguma - incrível.

 

Desci até a sala e encontrei minha mulher atirada no sofá escutando a televisão enquanto folheava alguma revista. Comentei qualquer coisa sem importância sobre as crianças que brincavam no chão da sala, esperando que ela levantasse os olhos e descobrisse, por si própria, a nova surpresa. Mas, ela ainda deitada, respondeu-me sem se virar.

 

Como as crianças começavam já a gritar e a chorar enquanto me olhavam, ela levantou-se assustada. Neste momento, eu próprio já estava bastante assustado e todo o torpor que uma situação como essa poderia provocar desmoronou, então, sobre mim.

 

Ela me olhava e gritava, tomada de horror, enquanto puxava as duas crianças para perto de seu corpo. Eu não sabia o que fazer. Queria socorrer as crianças e a ela que choravam desesperadamente e contar o que acabava de acontecer. Mas, atirado no súbito pavor que me atacava até o mal-estar, comecei a vomitar sobre minhas roupas enquanto procurava minha boca com as mãos. 

 

Entre os gritos que cresciam com violência e a náusea que queimava meus nervos, voltei para a escada e avancei pelos degraus, já quase sem os sentidos, até que, mal cheguei ao banheiro, desmaiei.

 

Acordei já com o banheiro completamente escuro. Ainda sentido-me muito fraco, escorreguei a mão pela parede até o interruptor. A luz feriu-me a vista mas bastou-me acostumar à claridade para reconhecer meu rosto atirado próximo ao vaso.

 

Com os dedos trêmulos, ajustei a pele pouco a pouco sobre a carne viva. Saí em direção ao quarto, desci novamente até a sala e descobri que minha mulher e as crianças não estavam dormindo em casa. Voltei até o quarto e vi que o relógio marcava, em seus números vermelhos, já quase três horas da manhã.

 

No dia seguinte, dia 14 de dezembro, procurei por minha mulher e pelas crianças e, já mais calmo, contei o que havia acontecido. Juntos, decidimos que era melhor não procurarmos por pontos de cicatrização ou marcas incomuns em meu rosto. 


por jeff@ig.com.br às 20h16 [   ]
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::CARTAS POLARES DE ALGUM LUGAR::

Depoimento colhido com equipamento 35mm no ato de entrega de passarela e alça de acesso aos miseráveis de Cidade de Panavision

 

Pode começar? Então finalmente tem umas pernas indo pela rua. Não quero falar. Vou cantar um pouco. Assobiar. Eu gosto de um assobio assim, mais devagar. Lembra uma música mais antiga. Eu me lembro de um barbeiro assobiando. Um barbeiro careca. Podia arrumar o cabelo um pouco aqui deste lado. Acho que fica melhor. Alguém podia me perguntar alguma coisa. Uma música para dançar. Tem músicas para dançar que você consegue ouvir deitado. Isso antes me enchia o saco um pouco. É porque você fica, depois, muito preocupado em fazer alguma coisa, ir para a rua. Vou procurar saber qual é a melhor maneira... Sempre eu acabo achando, mais ou menos, que eu estou errado mas que é esse o meu jeito de fazer e vai ser bom fazer do meu jeito.     
por jeff@ig.com.br às 19h51 [   ]
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[ O Tempo, Este de Cabelos Cansados ]



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    ::CHUVA::
    No parapeito baixo
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    algumas gotas cantoras
    subiam depois de tocar
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    Aproveitando o dia claro,
    outras gotas davam à chuva
    aulas de brincadeiras infantis
    girando em torno de si próprias e
    depois deitadas com as horas do meio-dia
    no pequeno jogo de descobrir.

    Com as asas molhadas sob o sol,
    o carteiro assobiava,
    fazendo um bico dentro
    [da caixa de correspondência,
    que era uma sorte
    ninguém saber o que há depois da morte
    se não era bem capaz de aparecer um filha da puta
    dizendo que sabe de que maneira
    se deve viver.

    (Abril / 006)



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    Alguma coisa já dita antes da Terra:
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    O inferno não conhece a fúria como palavra
    O corpo não conhece o sexo como palavra
    O silêncio, o escuro, o tempo,
    o azul, o amarelo e o vermelho,
    pelo que parece,
    não sabem das palavras

    (Abril / 006)


    Jefferson Alves de Lima, nasceu em 1975, "odiei com muito empenho a poesia até os 25", está a ponto de acreditar que vai concluir o mestrado em Comunicação e Semiótica

    Ou só o do e-mail:jeffersonalvesdelima@hotmail.com