
::A TONFA MUSICAL::
Lá vou eu dentro de um prédio de andares. Daqui me vejo. Olheiras fundas, a barba de três semanas, os olhos avermelhados. Minha camisa... Como chamar esse saco amarrotado de camisa... De qualquer forma, "isso" tem um complexo desenho na altura do colarinho. Não é possível se afirmar qual é o tema a que o desenho se refere mas é forte a impressão de que ele é resultado de uma mancha de água sanitária. Minhas calças têm também, por seu lado, esse aspecto esquisito. É impossível dizer se se trata de uma peça já lavada muitas vezes ou de alguma coisa que jamais viu água. Naturalmente, meus sapatos estão, também, seu tanto ruins. Daqui não seria lícito afimar que por baixo de uma napa tão ressecada haja ainda algum tipo de solado. Na verdade, olhando os sapatos daqui me vem a idéia de que deve ser um desejo meu encontrar o elevador viajando também na horizontal. Isso porque não pareço demonstrar grande segurança quando me mexo a distâncias superiores ao metro e meio. Ainda de onde estou vejo que, de quando em quando, esfrego as mãos pela cara e percebo que elimino um pouco de óleo perto do nariz e ainda mais na área da testa. Outras vezes, deixo escorrer os dedos pelos cabelos, ao mesmo tempo secos e emplastados, e imagino afagar um clown de Beckett. E é assim, justamente desta maneira, que eu próprio chego até mim, com um sorriso no canto da boca, e coloco a minha mão sobre o meu ombro erguendo minha camisa, ou o "isso", pelas pontas dos dedos, com essa zombaria de quem segura um sapato ou uma meia sujos. Contenho com muito esforço o riso, mas olhando-me no fundo dos olhos, pergunto-me, então: "Faz quanto tempo que você não dorme e acorda dois dias seguidos no mesmo poema, meu querido?".
por jeff@ig.com.br às 22h34
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