::RITME::

 

Com sentimentos de selvagem júbilo, devo dizer que não tenho nada de especial. Sou um cara bastante baixo e magro, nasci há pouco mais de trinta e dois anos e sou um destes sujeitos que comem num lugar qualquer destas ruas de comércio da cidade, em um dia qualquer, com uma televisão ligada. Não que eu goste. Para mim, tanto faz.

 

Mas acho isso de uma asneira tétrica. Se vocês vieram aqui para me ouvir falar sobre mim, podem tirar o cavalo da chuva e darem às costas agora. Não tenho um pingo de saco para ficar aqui, eu, falando disso.

 

É mortificante. Como se isso tivesse, realmente, importância! O que é que eu sou! É, mesmo, bem provável que, de tanto pensar nisso, eu acabe arrumando alguém para ser: um dócil, um revoltado, um ponderador, um poeta, um arrivista, um demente, o próprio Jesus!

 

Mas também não levo uma vida assim tão fodida. Quero dizer: para escrever a gente termina eliminando as ambigüidades e a possibilidade de uma ojeriza completa...  E aí... Aí vocês sabem - acaba indo pra lugares que não iríamos, sequer, apontar.

 

Já li Eliot, Yeats, Keats, o próprio Joyce e os salões de letrinhas. Mas preferiria dizer isso contando que se eu passasse, agora, pela calçada de um cabeleireiro terminaria, com a mais completa certeza, olhando lá dentro. Eles sempre têm uma mulher do tipo que eu gosto lá dentro.

 

Não é um tipo. Assim como, por exemplo: uma loira, de short curto jeans e tamancos brancos combinando com a blusa fina. Mas taí um exemplo que eu adoraria encontrar. Posso até parecer meio ridículo mas consigo sentir até o cheiro de sabonete barato dos braços dela.

 

Comi muitas assim. Só de pensar tenho vontade, mesmo, de bater uma punheta.  Que coisa. E, tudo isso para dizer, que eu fico surpreso com a enorme fúria que existe no mundo para se falar, falar e falar. Todo mundo tem o que dizer nas entrevistas, nos ensaios, nas teses, nos romances, no teatro, na dança, no espetáculo plástico. É uma loucura.

 

E eu, essa grama suja e rala entre os dormentes banguelas, que penso que quando leio, escrevo, costuro, de queixo na mão, o que eu sou, como é que vou e de onde eu olho. Por que falam? Por que que há alguma coisa ao invés de nada?

 

Por que? Porque nada disso é mais do que uma maneira de envelhecer e morrer. A festa acabou. É hora de escutar os golpes e pulos do próprio peito.

 

A escola dos justos foi feita pensando-se em poucos. A entrada é larga, ampla, colorida e desacreditada – com o mesmo sem sentido do menino solitário e desenturmado. Tiro de mim um poema, se muito, uma boceta de tamancos brancos, signos e símbolos que soltos e desencontrados perpetuam-se, abertos à cauda, ao escuro, às aventuras do que não se sabe.

 

E isso é mais que um papagaio que assobia acorrentado pela perna? E eu que ainda pensava que o que era mais meu eram essas imagens ruins mas que são, de alguma forma, o que se quer dizer. A gente cai no que quer cair. Essa é a grande verdade.

 

Às vezes um desses sujeitos – desses  que “dizem”, e tem muitos, nossa se tem - diz que o ponto alto da alegria é a visão da tragédia. E a gente desmorona. Mas o que ele fez foi só ser visto com a alegria e a tragédia na mesma boca e a gente enxerga já ali uma massa disforme e furiosa – como a própria morte encostada ao teu nome.

 

E no meio de todas essas bocas que falam e falam e falam estamos nós, na iminência do que vamos ser. E isso dá uma dor terrível mas a vontade é de não estragarmos, não impedirmos que aconteça: que nos transformemos em homens e mulheres que jamais voltarão a ter um migalha de compaixão com o que não está pronto e acabado.

 

Sabemos disso. Mas não queremos parar. Passamos a travessa de um lado para o outro da mesa com a capacidade de nos desmancharmos em prantos mas apenas sorrimos, fazemos piadas e rimos. E tudo o que está sobre a mesa é comido e bebido por todos. Todos com os seus eus complexos, cheios de inquietude e moral.
Ah! O clamor próprio dos golpes revidados! Como eles alegram e enchem de júbilo!


por jeff@ig.com.br às 00h50 [   ]
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[ O Tempo, Este de Cabelos Cansados ]



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    No parapeito baixo
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    Com as asas molhadas sob o sol,
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    (Abril / 006)



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    O silêncio, o escuro, o tempo,
    o azul, o amarelo e o vermelho,
    pelo que parece,
    não sabem das palavras

    (Abril / 006)


    Jefferson Alves de Lima, nasceu em 1975, "odiei com muito empenho a poesia até os 25", está a ponto de acreditar que vai concluir o mestrado em Comunicação e Semiótica

    Ou só o do e-mail:jeffersonalvesdelima@hotmail.com