::UM ASSOBIO PARA VOCÊ DECLAMAR::

 

Dormia pesadamente – se é que eu posso dizer, assim facilmente, que isso acontecia naquela época – quando senti as duas pontas de um par de sandálias fazendo pressão nas minhas costas.

 

Se bem que acho que não pensei em sandálias mas em um cachorro - já que não era difícil algum também descobrir, já naquela época, que aqui era um bom lugar para dormir.

 

Ah, sim. Pensei nisso. Até porque senti o calor dos pés e, depois, um leve peso que ia aumentando à maneira que (isso era o que devia estar acontecendo) ela devia se curvar bem acima de mim.

 

Ou acho que pensei no cachorro... Sim. Eu não sei. Mas não, de jeito nenhum, não queria me virar para ter a certeza de que era isso e dar a entender que, de alguma forma, entende?, eu estava interessado em saber quem estava ali.

 

Nessa época era bastante freqüente eu não saber quem metia todos os dias a cabeça entre o vão da ponte e as minhas fuças. Na realidade, não sabia que eu podia ficar por dentro disso... Fui percebendo lentamente, devagar, até que percebi tudo. Mas tive de me esforçar. Sabia que eram esses que não conseguem - nunca - esperar para serem descobertos que subiam aqui.

 

Sempre acabavam abanando-se com um livro ou uma folha qualquer bem na frente da sua cara até que você, olhando para um deles, por mais de dez minutos ou mais ainda, já não se agüentando mais, falava se era um maldito de um calor ou o que que estavam sentindo.

 

Sabia disso ainda mais porque eu sempre acabava perguntando. Mas também porque antes dessa época - quando eu tinha descoberto tudo, a descoberta toda - eu procurava me ocupar toda vez que um desses estava para aparecer.

 

Às vezes eles vinham. Às vezes eles não vinham. Mas tinha vezes que vinham. Eu ainda esperava um pouco mais. Aí, quase sempre, eu me limpava com um pouco de cuspe. Eles logo vinham, ficavam um pouco aqui, sentavam por aí e cantavam alguma coisa. Eu pensava que deviam ser chefes em outra freguesia.

 

Mas isso foi depois. Lembro que antes eu me levantava, entrava no banho, passava desodorante, depois perfume, apanhava minha carteira, bonita... Me custou uns duzentos, trezentos... As chaves... Vai saber: acho que trezentos e trinta reais. Crachá, jornal... acho que eu não tinha luvas... Sim. O que eu dava era um beijo nas crianças... Não. As crianças foram depois. Ou eu tinha sonhado com as crianças?

 

Hoje, eu penso que não. Penso que o que acontece é que eu sempre me lembro muito pouco dos sonhos. O problema é que, justamente, quando aqueles, os dois pés nas sandálias, me acordaram, eu estava no meio de um deles - e em um sonho com crianças, muitas crianças, como abelhas.

 

Bem. É claro que nos sonhos a gente sempre está em um lugar que não sabe bem aonde é. Mas sempre sabe que havia uma coisa e também havia isso outro e aí aquilo acontecia e depois tem um lugar que parece que não é mais o mesmo e blá-blá-blá-blá. Isso eu sempre me lembrava.

 

Mas crianças? E era, mesmo, uma dessas que estão sempre chorando nestas pinturas de cinco reais. Já vi muitas destas à venda nos domingos. E essas crianças estão sempre com olho grudado em mim. Preciso esconder-me, com alguma habilidade, porque, se eu não for esperto, lá estão com os dois olhos metidos em mim.

 

Essa era uma criança gorda - como eu nunca tinha visto - e havia um jacaré indo em sua direção. Tinha isso do calor dos pés nas minhas costas e o jacaré correndo e parando como uma pedra. Mas eu pensava que os jacarés são animais de sangue frio e, então... Bem, então, eu acordei dessa forma com aquelas duas sandálias cutucando minhas costas.

 

Acordei o mais silenciosamente que pude, quero dizer. Nem abri os olhos, fiquei completamente quieto, ouvindo cada detalhe e som daquilo, eu mal respirava, eu consigo prender a respiração por um tempo absurdo, é bastante fácil, então, eu percebi, afinal, que eram sandálias e, eram claro, de mulher. Uma mulher com um cheiro bastante bom, aliás.

 

Cheiro é uma coisa que eu gosto. Quando eu descobri que um braço do rio morto corria aqui por perto, cheguei a levar uma cadeira para passar as horas de sol praticamente dentro da água parada.

 

Uma vez eu tentei, mesmo, colocar a cadeira dentro da água mas o meu primeiro pé que afundou no lodo só saiu ao custo de eu deixar lá o meu sapato e eu fiquei com medo de voltar para cá completamente descalço.

 

Poderia dizer que contei quatrocentos ou quinhentos carros passando pela rua enquanto estava quieto, mas não contei nada. A verdade é que ficamos 27 anos, em silêncio, daquela maneira.

 

Vinte e sete anos inteiros até que abruptamente eu me virei e ela lentamente acomodou-se entre minhas pernas, meu casaco e o meu saco escrotal. Mas não ficamos assim todo tempo - se bem que eu acho que ela gostaria. De vez em quando, eu me levanto para buscar uma mexerica. De vez em quando, ela sai para arrumar o cabelo. Sei que toda noite, antes de pegar no sono, eu atiro o meu pé de sapato para longe e ela acha graça, muita, mesmo. Nessa hora do dia ela sempre dá risada.


por jeff@ig.com.br às 22h14 [   ]
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    (Abril / 006)


    Jefferson Alves de Lima, 33, jornalista, está a ponto de acreditar que vai dar para concluir o mestrado em Comunicação e Semiótica