::NOTAS PARA UM PASSATEMPO INACABADO::

 

 

Pagamos pelo xerox conforme a placa no fundo da loja. Precisava ter comigo os dias e também os horários de nossos fins de semana, os nomes de todos que iam estar por lá e essas coisas. Por todo o caminho – eram seis ou sete quarteirões para a loja – eu não pensei se tínhamos ou não a tabela. Néscio chafurdava a cada passo um dos bolsos ou sua pasta enquanto a gente ia andando (mas isso ele fazia de qualquer forma) e dizia “sim, sim. tenho a tabela aqui comigo” - como se fosse, mesmo, encontrá-la o quanto antes ou coisa assim.

 

Na verdade, nessa época eu já tinha certeza que a minha sorte tinha alguma coisa presa a esses palhaços idiotas. Quer dizer, eu sempre trabalhava com um otário desses. Às vezes eu não entendia porque eu não me incomodava quando ele ou algum outro cretino se dava mal. Mas era só pensar um pouco. Era bastante fácil na verdade.

 

De qualquer forma, depois de pagarmos pelo xerox, Néscio acabou dizendo que a tabela que eu pedia era outra e não a que ele prendia embaixo do braço enquanto revirava sua pasta dizendo “puxa, essa eu não tenho. Essa não está aqui”. Aquilo me irritou. Não o chamei de cretino na frente da garota da loja. Esperava para quando saíssemos lá fora.  Pedi só que a menina me devolvesse o dinheiro. Tinha entregado uma nota de cinco e ela ainda não havia feito o troco e essas coisas e é aí que a história começa.

 

Ela me mostrou uma garrafa de água e disse que, se eu preferisse, poderia pegar duas garrafas, e doces e sei lá o que. Eu ainda não tinha entendido, ou não queria imaginar que era aquilo, mesmo, quando Néscio cortou a porta, indo embora, depois de me apertar a mão - na verdade, eu não percebi Néscio indo embora; acho que, pelo menos, o demente me apertou a mão, pelo menos devia. Encostei no balcão com o dedo apontando para a mocinha e disse à ela que não queria cerveja, água ou o qualquer porra daquela – talvez eu criasse caso por coisa alguma, isso sim, mas, bem, ela que abrisse aquela porcaria daquela gaveta, apanhasse a minha nota e não me chateasse e essas coisas todas.

 

Ela me disse, bastante ocupada em colocar um engradado sobre uma outra caixa, que isso não era possível, que mais algum... Dei um grito teatral e cretino esticando as vogais como se estivesse numa ópera dizendo, numa ópera, mesmo, assim: - Ah! É? É? Pois...”, e ia subindo cada vez mais a voz, “pois eu vou ficar sem minha nota-á porque uma atendente-ê não quer abrir a porcaria de uma gaveta-á e pegar meu dinheiro-ô?”.

 

Ela disse algo mas virando as costas para abrir uma outra caixinha (estava bastante empenhada em arrumar a beleza daquelas caixinhas). “Mais algum doce como de 2?”, foi exatamente isso o que disse para criar alguma confusão... e ela parasse com a história das caixas e coisa assim. Mas que nada. Então, aumentei a voz e comecei, mesmo, a dar uns passinhos pela loja como se tivesse num desses vaudevilles cretinos e essas coisas: “Não tem um gerente nessa loja-á, nesse shopping center-ê, nessa porcaria desse promo center-ê, lixo center-ê?”. Isso parece que a enfureceu porque ela disse que havia, sim, mas que eu não me preocupasse que ela chamaria a segurança para me mostrar.

 

Eu falei que dali não sairia nem a tiro sem a minha nota de cinco. Ela saiu do balcão e discou num telefone, bastante bonito até, para a tal segurança. Estava, realmente, uma pilha. “Sim, um homem gritando aqui dentro da loja e dizendo que não sai. Não, não. Até que é bem calminho mas venha tirá-lo...” e essas coisas todas.

 

Quando desligou, eu disse a ela que reclamaria ao gerente e ao mundo todo o atendimento ruim e o cheiro horrível que tinha aquela loja (e outras cretinices assim) e que reclamaria especialmente de uma funcionária chamada... e tentei ler o nome que estava escrito no crachá dela mas estava difícil pra burro.

 

Vi um L e um I e disse: - Da funcionária Lúcia... Ela soltou um risinho abafado, como esses de criança, como rê rê rê e essas coisas, e passou para o fundo da loja e eu fui atrás dela tentando ler que Diabo de nome era que estava escrito ali e ia dizendo: “você sabe, eu vou fazer uma reclamação especial de você, isso é o que quero dizer. Vou dizer que a funcionária...”, e não conseguia entender o maldito nome que estava escrito no crachá que ela tinha pendurado no pescoço.

 

Ela parou e fez uma pose como se colocasse o dedo na bochecha e fizesse uma boca e uns olhos do tipo sexuais (assim, sabe?) - Meu Deus!, ela era linda! Mas pegou o crachá e levantou a uma altura em que eu pudesse ler seu nome, como se falasse: “É isso?”.

 

Eu tentava, ao máximo, não deixar que ela descobrisse que, sim, era aquilo e falei: pois vou dizer que a funcionária Sono Knoli (que nome. puxa. então, ela tem alguma coisa de japonesa e essas coisas?), que ela foi horrivelmente má e cruel e quis me ver errando pelo mundo sem um tostão no bolso e umas outras coisas cretinas assim e que, se ela não sabia, aquela nota de cinco era o único dinheiro que eu tinha na minha vida.

 

Ela me disse, saindo de trás do balcão novamente e olhando para as caixinhas que ela devia amar: “Não tenho nem isso”. Houve um desses silêncios bastante surpreendentes, desses que vão trazendo uma sugestão atrás da outra, esses silêncios em que você quer encontrar alguma coisa para fazer ou dizer, que acabe com ele mas que, ainda assim, deixe alguma coisa dessa seriedade ou solenidade que ele tem muito mais do que qualquer palavra. Quero dizer, acho que ficamos assim quietos um século.  

 

Na verdade, o que eu sentia era uma profunda solidariedade por ela e acredito que era, exatamente, isso o que ela sentia por mim. Eu disse: “Quer ficar com essa nota para você?”. Sabe, essas coisas de que se falarmos sobre nós, nosso romance, é ridículo mas ser falarmos “o cortante amor de Hamlet” é bastante cool... Ah, uma cretinice. Ela era linda e eu a beijei.

 

E, ah, beijei com os olhos fechados até ouvir os passos do chefe da segurança ou alguém assim entrando na loja e o som dele puxando o ar para falar. Mas não falou nada, nem soltou a primeira palavra e essas coisas.


por jeff@ig.com.br às 01h46 [   ]
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    Com as asas molhadas sob o sol,
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    (Abril / 006)


    Jefferson Alves de Lima, 33, jornalista, está a ponto de acreditar que vai dar para concluir o mestrado em Comunicação e Semiótica