::O MUNDO COMEÇA NO TÉRREO::

 

Senti o desprezo queimando a minha cara quando sorri e dei com a mão para M. e ela devolveu, talvez, a ponta de seu queixo batendo pra baixo. Se eu conseguir sugerir a revolta que potencializa isso, posso chegar perto do que senti. Assim fiquei feliz de verdade quando vi que ela tinha um motivo para ter feito aquilo. Eu vi que ela chorava. Pensei, com uma alegria que eu sei abjeta, que era provável que alguém como a mãe dela tivesse morrido.

 

Mas não quis desconsiderar essa mínima frustração que tinha me agitado. Pelo contrário, achei que seria uma boa brincadeira fingir que não tinha percebido nada. Quando ela empurrou a porta de vidro para entrar, falei como uma piada bizarra: “Que porra de cara de poucos amigos é essa?”.      

 

Ela falou, e ao mesmo tempo soluçava pelo nariz, que o... Na verdade, eu entendi só o fim, que foi um (para mim) gongórico “meu tio morreu”. Pela primeira vez, então, eu olhei para ela e ela era um lixo. Devia ter chorado muito. O que tinha, e realmente tinha, de bonita, estava contorcido numa mascara terrível. Ela falou, ainda muito magoada, que o chefe tinha sido um escroto, que tinha se recusado a ajudá-la. Me dispus a ajudar.

 

Me pediu que levasse um negócio para algum lugar... Não ouvi o que era. Mas concordei, claro. Fui vendo-a e ela estava mal, mesmo. Pensei em alguma frase que eu gostaria de ouvir em uma hora assim e falei alguma coisa – dessas coisas que se repetisse agora eu ia parecer apenas um palerma... Mas fui ao lugar em que tinha me pedido para buscar o... Eu não sabia. Eu não sabia o que era. Lá havia um monte de gente conversando com voz baixa, pesarosa. Fiquei minutos em pé, tentando perceber quem eram os parentes dela ali. Descobri um amigo. Puxei-o pelo braço, solenemente.

 

Ele me olhou e recolheu o lábio inferior erguendo a sobrancelha como se dissesse: “é triste, não é?”. Baixei a cabeça – era horrível o cheiro, o ambiente daquilo. Falei, meio entristecido, que tinha encontrado M. e ela precisava retirar algo dali e levar para um outro lugar. Ele me perguntou se M. estava muito abatida. Falei - consciente da minha satisfação: “Ela está um lixo”. 

 


por jeff@ig.com.br às 12h24 [   ]
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    No parapeito baixo
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    Com as asas molhadas sob o sol,
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    (Abril / 006)


    Jefferson Alves de Lima, 33, jornalista, está a ponto de acreditar que vai dar para concluir o mestrado em Comunicação e Semiótica