::O PASSARINHO QUE NÃO USOU AS ASAS VIROU FRANGO À PASSARINHO::

 

 

Não está lá essas coisas e eu vou dizer o porquê. Há um número de idéias e desejos  lembrando o amontoado de nós e o olho à frente da lâmina, o romance de Bataille e a palestra do Lacan.

 

Esse tipo de situação, em que aparece a psicanálise que cobre o nariz diante do corpo do Cristo, descamba naturalmente para a cisão da seta furando o círculo – mãos por dentro de calcinhas, a língua dardejando dentro da boca, o dedo colocado no corpo morto pelo furo de bala e, é esse o assunto, o móvel comido pelos cupins.

 

A paúra e a contração provocadas pelo toca-discos atacado de cupins são as mesmas da imagem do cachorro morto e inchado por um grupo de vermes que se mostra ora pelas orelhas e entre os dentes. Há o mesmo tipo de coceira da carne. E aqui as duas se encontram na imagem da mão que se move lentamente enquanto insetos aparecem por um buraco descoberto no centro da palma. Uma discreta – mas indisfarçável fisgada que empurra o queixo pra baixo – enfileira assim, também, a ferrugem e dentes cariados.

 

É como se o grupo de cupins (destacados pelo formato e a cor branca das larvas) se mostrasse no corpo ainda vivo (para evitar a manjada imagem das chagas de Cristo) - ou um portão perdesse sua forma diante da ferrugem como dentes doentes – e atemorizasse, assim, nervos e músculos diante da ameaça à permanência estável. O sangue que se esvai na guia e extermina o sexo. E estaria aí a questão?

 

Não parece ser por aí. Um grande painel feito da mistura dos mais diferentes tipos de cabelos recolhidos em barbeiros e outros tipos de salões de beleza haveria de disparar o horror à insegurança da natureza da mesma maneira - ou com o mesmo esgar de incômodo provocado no que se relaciona às unhas, sobretudo às unhas dos pés.

 

De qualquer forma, um grande painel feito de unhas dos pés reclamaria a um senso de higiene (e, mesmo que não existisse, seria por cheiros) que um quadro feito de cabelos não dispararia. E aí o que parece estar em jogo é a força disposta a banir o medo da morte – e por isso o sexo e a paúra.

 

 

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::ESTÁVAMOS DEIXANDO O AR LENTO E MORNO::

Se fosse música mas é só investida, fuligem, lonas pretas, arcades de fliperama e sempre alguém dando o fora. A história de um toca-discos. Na verdade, eu não gostaria de ter uma “representação” das coisas - uma imagem, como se diz muito. Mas elas inteiras, nem que pra isso eu tenha de falar só de vultos – e alto, sem receio de estar à direita de uma tabuleta com a sala e o horário do velório. Qual o problema – objetivo - em ficar aqui? Ah, tradição a zelar, seu nome avança. O que eu quero esquecer pode ser dormido, jogado, mastigado, rosqueado... É um poder que eu reconheço nos sozinhos. Isso porque, como qualquer outra coisa, não vai começar nem chegar aonde se quis. O melhor é dar o fora. E ir encontrar-se sozinho como um peixe com a miserável idéia de estar avançando. Olhava as miniaturas com mais simpatia. Como uma coisa que não serve para nada pode ser ótima?

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Essa história é MUITO boa. Abaixo segue a íntegra da matéria da Folha de hoje... muito bom... Rafael Augustaitiz > Rafa Pixobomb > Pichação Belas Artes > Pixação Conclusão de Curso

::40 (e um) Pichadores se Divertem na Escola de Belas Artes::

Colegas classificaram ação como terrorismo; coordenadora do curso de Artes Visuais chamou de "ato de vandalismo"

Aluno da Belas Artes convocou grupo para realizar prova de conclusão de curso


LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Cada um dos 37 alunos do último ano do curso de Artes Visuais do Centro Universitário de Belas Artes tinha de apresentar uma obra para garantir sua formatura. Três espaços foram reservados para a exposição dos trabalhos. Trinta e seis alunos preencheram esses espaços com sua produção. Um -Rafael Augustaitiz, 24-, não.

Pichador desde os 13 anos, Rafael resolveu apresentar um trabalho diferente. "Uma intervenção para discutir os limites da arte e o próprio conceito de arte", explicou.

Nos últimos dias, os locais de reunião de pichadores no centro da cidade tornaram-se focos de recrutamento de jovens para "a ação", como se chamou. Às 21h de anteontem, horário de intervalo das aulas, 40 deles, idades entre 15 e 25 anos, compareceram ao "ponto", na estação Vila Mariana do metrô (zona sul).

"Estamos todos muito ansiosos", disse um morador do Ipiranga, que assina suas pichações com o desenho de um monociclo. A maioria dos rapazes nunca pôs os pés em uma faculdade; sua estréia no ensino superior seria justamente em um trabalho de conclusão de curso.

Em cinco minutos andando a pé, o grupo alcançou a escola. Muitos vestiram máscaras improvisadas com camisetas ou daquelas usadas para pintura com compressor. Logo, as latas de spray foram sacadas de dentro dos moletons folgados.
Os jovens pichavam suas "assinaturas" nas paredes, nas salas de aulas, nas escadas, sobre os painéis de avisos, nos corrimãos. Uma funcionária da secretaria, Débora Del Gaudio, 30, quis impedir. Levou um jato de spray no rosto.

Usando a técnica do "pé nas costas", os pichadores formaram escadas humanas (com até três jovens "empilhados"), uma forma de atingir andares superiores da fachada. Assustaram funcionários da escola enquanto escreviam aquelas letras pontudas e de difícil decifração.

Os 30 seguranças da faculdade mobilizaram-se para acabar com a farra. "Deixa eu terminar a minha frase, pô", pediu um jovem. Tomou um soco. Revidou. Virou uma pancadaria.

"Abra os olhos e verá a inevitável marca na história" e muitos símbolos do anarquismo, além das letras pontudas já cobriam o prédio, quando cinco carros da polícia militar chegaram ao local, apenas dez minutos depois de iniciado o ataque.

Enquadrado pela PM, Rafael gritava ao entrar no camburão: "Olha aí, registra, isso é um artista sendo preso."

A maioria dos alunos não achou nada legal "a ação", "a intervenção", "a obra" de Rafael. "Terrorismo. O que aconteceu aqui é terrorismo. Se isso é arte, então o maior artista do mundo é o Osama Bin Laden e o buraco das torres gêmeas é uma obra-prima", disse Alan George de Sousa, 33, do curso de arquitetura e desenho industrial.

"Eu pago R$ 1.500 de mensalidade no curso de arquitetura porque trabalho e minha mãe também dá um duro danado para me manter aqui. Aí vem um filho da mãe dizer que fez essa porcaria toda porque a gente é tudo burguesinho. Ora, vai estudar, se preparar", gritava uma aluna.

Rafael amanheceu o dia de ontem em companhia de mais seis acusados de pichação no 36º Distrito Policial, no Paraíso. Duas estudantes de publicidade da Escola de Propaganda e Marketing, que fica em frente à Belas Artes, estavam lá também, exigindo: "Essa gente tem de se ferrar." As duas acusavam o grupo de pichadores de riscar o Honda Fit cor de champagne que saiu da concessionária "há menos de uma semana".

Ontem à noite, na parte interna da escola, já nem parecia que o aluno com 40 manos tinha estado lá. Tudo estava limpinho. Às 20h30, a turma dos formandos (menos Rafael) ia se reunir para "processar esse trauma", nas palavras da coordenadora do curso de Artes Visuais, a artista plástica Helena Freddi, para quem o que aconteceu na faculdade foi "um ato de vandalismo que extrapolou os limites da ação civilizada."

No texto que escreveu para justificar "a ação", 28 páginas encimadas pelo título "Marchando ao compasso da realidade", Rafael desafia: "Somos abusados? Que se foda! É um orgulho para vocês eu estar dentro dessa podre faculdade. Não sou seu filhote, não preciso do seu aval. A arte hoje em dia é para quem está na pegada. Para os bunda-moles ela morreu faz é tempo." O curso de Artes Visuais tem mensalidade de R$ 900. Rafael é bolsista integral.

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por jeff@ig.com.br às 02h32 [   ]
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    No parapeito baixo
    da janela rosa,
    algumas gotas cantoras
    subiam depois de tocar
    a terra branca e a grama nova.

    Aproveitando o dia claro,
    outras gotas davam à chuva
    aulas de brincadeiras infantis
    girando em torno de si próprias e
    depois deitadas com as horas do meio-dia
    no pequeno jogo de descobrir.

    Com as asas molhadas sob o sol,
    o carteiro assobiava,
    fazendo um bico dentro
    [da caixa de correspondência,
    que era uma sorte
    ninguém saber o que há depois da morte
    se não era bem capaz de aparecer um filha da puta
    dizendo que sabe de que maneira
    se deve viver.

    (Abril / 006)


    Jefferson Alves de Lima, 33, jornalista, está a ponto de acreditar que vai dar para concluir o mestrado em Comunicação e Semiótica