::POR QUE O LIXEIRO NÃO LEVOU O SOFÁ?::

 

Dedicado a Marcos Villas-Boas

 

O modelo aqui proposto sugere a elaboração de um estudo dedicado à problemática do sofá. Partindo do preceito e análise do sofá deixado na via pública como elemento de dejeção da sociedade de consumo, será aqui selecionado o sofá de três lugares comercializado em lojas de varejo tais quais Marabraz, Bahia e Dominó para a conceituação do doravante chamado Paradigma do Sofá - Estudo do Sofá Deixado na Rua. Com a preocupação de assegurar um objeto de estudo puro e, considerada a idéia de estado da arte (ECO, 1977), o recorte inclui o levantamento de móveis similares a sofás, como sofá-cama, puffs e variados tipos de poltronas.

 

No entanto, por conta da articulação bibliográfica sobre acúmulos sólidos em logradouros públicos e de uma categorização do trabalho, reuniremos todos, daqui para frente, sob o substantivo genérico sofá (sofa-cama, sofá de mola, poltrona do papai, etc). 

 

Está fora de dúvida que a presença do sofá na literatura sociológica do Brasil é restrita. No entanto, seu abandono em via pública ou sua condução em veículos utilitários ou amarrado no teto de carros de passeio até rios e estuários é amplamente conhecido como ad modus de se desfazer de um problema que se resume na primeira pergunta deste estudo: “Por que o Lixeiro não Levou o Sofá?”.

 

A questão reunida neste conjunto de sememas, para além de uma análise do serviço público de coleta, nos abre campo para a proposição que aqui, e até o final deste estudo, chamaremos simplesmente Paradigma do Sofá. A sugestão deste Paradigma se justifica dada a extensão do tema sobre como se livrar de um sofá. Além de campos a priori envolvidos pelo assunto da pesquisa (econômico, sociológico, político, urbanístico, sanitário, semiótico), o tema se aproxima de áreas que tocam todos esses campos sem se fixar em nenhum deles, áreas como arquitetura, terceira idade e planejamento familiar.

 

Isso se verificará nos motivos mais comuns pelos quais um sofá é atirado na rua (n.e.: consideramos aqui o conceito de rua de MATTA (1985)). No entanto, faz-se necessário, antes, uma breve contextualização do objeto de estudo.

 

O sofá se liga hoje, invariavelmente, à vida familiar doméstica e à "cultura da televisão" (BORDIEU, 1997) nas classes baixas e médias. Assim, é comum, como veremos, verificada esta referência econômica, o sofá ser trocado "na época do décimo terceiro" - período em que aumenta impressionantemente o número de sofás nas ruas da cidade – configurando-se, já, involuntariamente, uma variante de decoração natalina, ao lado de luzes e árvores.


por jeff@ig.com.br às 20h57 [   ]
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(continuação) ::POR QUE O LIXEIRO NÃO LEVOU O SOFÁ?::

 

Como postula esta proposta de estudo, historicamente, o surgimento do sofá tem versões inúmeras e, em alguns pontos, contraditórias. Consensualmente, o sofá apareceu no antigo Oriente Médio  como trono nos impérios árabes. Ainda que com outra configuração, o formato aqui estudado (três lugares) teria sua origem, no entanto, em Roma.

 

Na sociedade romana, o sofá se encontrava com o comedor, conhecido como triclinum. Um jogo de três sofás era colocado ao redor de uma mesa baixa e os homens descansavam enquanto comiam (às mulheres se reservavam as cadeiras convencionais - o que justifica que tenha sido nesse contexto que se encontram os primeiros registros da duvidosa blague popular repetida ainda hoje Mulher é igual sofá: todo ano é bom trocar). 

 

O sofá era originalmente um móvel elitizado e foi só com a formação das cidades e, após o alto período de industrialização e divisão do trabalho, que o sofá se converteu em artigo imprescindível nas casas de classe média e baixa. É recorrente, assim, um parente passar o sofá a outro ou a um conhecido do parente – geralmente, nas classes baixas é ganho um sofá “que tá novo”, segundo quem doa, mas incute-se aí uma complexa troca que leva este estudo a uma segunda pergunta: “Quem Vai Ficar com o Sofá?”.

 

Se um personagem dos quadros da classe baixa (o chamaremos de Alfa) recebe o repasse de um sofá avariado de um parente ou conhecido do parente, quem receberá o sofá ainda mais avariado que Alfa porventura futuramente terá necessidade de se desfazer?

 

Nesse ponto, podemos abrir dentro do conceito de Paradigma do Sofá ainda uma terceira pergunta: “Quais os Motivos Mais Comuns Que Levam Alguém a se Livrar de um Sofá?”. Ampliando a projeção do estudo para campos como arquitetura, terceira idade e planejamento familiar, alcançamos seis (6) situações-modelo de como o sofá vai parar na esquina, no rio ou, mesmo (em cidades litorâneas é ocorrência freqüente), no mar.   

 

São as situações-modelo: 1) A troca do sofá no mês do décimo terceiro - essa situação-modelo envolve as ciências economicas, sociólogia e políticas dentro do Paradigma. 2) Um sofá "que tá novo" é recebido de parente ou pela intermediação de parente - caso de Alfa. 3) O sofá não passa na porta da casa ou apartamento na hora da mudança. 4) O marido e a mulher, que estão se separando, não chegam a um consenso de quem fica com o sofá. 5) O sofá apresenta forma, cheiro e/ou textura “incomuns”, muitas vezes, por conta de chuvas e enxurradas - geralmente, este é o mesmo sofá da situação 2; e, co-relato, 5-b) Fenômenos naturais, como chuva ou furacões, arrastam o sofá. E, por último, 6) O sofá se associa a figura de um parente (geralmente idoso) que, quando morto, leva o sofá a ser colocado “para quem quiser levar”. Essa última ocorrência reflete um motivo muito comum dentro do Paradigma do Sofá. Geralmente acredita-se que, colocando o sofá na rua, “alguém acaba pegando”. Há quem estenda, nominalmente, a essa função a definição de “serviço público”.

 

Como metodologia, é do escopo desta proposta de estudo entrevistas com restauradores de sofás e a apuração e tabulação do mercado dos diferentes tipos de capas para sofá. Dada a inexistência de estudos neste sentido, como parte final e meta deste estudo, será levantada, como possibilidade, a criação de Secretaria Municipal Pública voltada ao recolhimento e exibição dos sofás deixados à disposição, numa espécie de “roda dos enjeitados” dos sofás.

LIMA, J.A., maio/007, SP. 


por jeff@ig.com.br às 20h57 [   ]
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    (Abril / 006)


    Jefferson Alves de Lima, 33, jornalista, está a ponto de acreditar que vai dar para concluir o mestrado em Comunicação e Semiótica