foto: Davy Kominich Angulo


por jeff@ig.com.br às 18h43 [   ]
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::ENTRE HAVER SOM NO HORIZONTE::

 

Se você tivesse lido o texto que escrevi pela manhã, saberia que o Sr. Muã morreu e que, graças a isso, hoje não tenho que ouvir a merda daquele piano. Falo merda mas agora fico em dúvida. Quem me assegura que isso não termine por passar a idéia de uma crítica a qualquer um que toque piano e, mesmo, que me obrigue a arrumar um tipo de música para elogiar em oposição? Tsc... Váá. É um pouco isso, mesmo.

 

É uma perda de tempo sentar para criar alguma porcaria de som imaginando que pensarão algo sobre aquilo, que aquela estupidez tem algo de quem a toca, que pode (é esse o sonho) transformar, pela “arte”, uma maldita vida arruinada em qualquer farelo de ouro que seja. É uma perda de tempo. No caso deste velho que morreu hoje eu acho ainda pior. E não porque ele não sabia tocar ou porque sabe Deus em que brejo ele conseguiu aquela gaveta cheia de teclas. Mas porque tinha a certeza de que era uma pessoa alegre, um ânimo contagiante e essa demência toda que a televisão alimenta.

 

Este tipo de velho que veste calças pobres e sujas e mantém o cabelo rescendendo a algum óleo escuro e molhado aparece todos os dias em qualquer lugar que tenha velhos. Durante todas manhãs e tardes há grupos e grupos destes em todos os lugares apertando os braços atrás das costas e trocando o peso de uma perna para outra enquanto acompanham um caminhão que faz uma manobra perto demais da calçada.

 

Era muito provavelmente por saber isso que este velho ( o velho alegre e de alma leve aprendia a tocar até, veja você, piano) - que se apertava há anos num destes corredores que fica em frente a minha janela – se atirava sobre aquela caixa mambembe, como se fosse uma outra vida. Alguém tem dúvida? Interessava a ele, o velho que era tão bem-humorado que ia deixar saudades (Deus do céu!), interessava a imponência e nobreza que pode haver num piano – era o caminho mais curto para alguma história, entende?

 

Poderia negar mas não escrevo isso senão para esclarecer o que sou diante de mim mesmo. Era, sim, o real motivo de meu interesse. Quer dizer, como já sei o quanto para mim importam as opiniões dos outros, era essa a minha maneira de propor antecipadamente como ser visto – a meu favor, não posso deixar de dizer que ainda hoje tenho, sim, uma ponta de desprezo em relação a essa minha maneira de agir.

 

Mas se fosse possível, gostaria, mesmo, de abandonar a terceira pessoa e dizer que essa história é, na verdade, minha. Estava, ano a ano, fechando-me em meu desespero em acertar e o que fazia, provavelmente, já não tinha mais nada de meu. Já se disse que o homem é só. Eu acrescentaria que não há família, mulher e filhos que contornem isso. Tinha dúvidas tanto de um lado como de outro. Deveria procurar aproximar-me ou esquecer o mundo (terrível meta que vez por outra impunha para minha vida)? Sensatamente, eu diria nem tanto ao céu, nem tanto à Terra – em outras palavras, sou ótimo para dar conselhos. Peço desculpas pelo humor mas não é sempre que consigo me mostrar tão simples e honestamente.

 

Também poderia descrever aqui uma perfeita maneira de se viver, com direito a exemplos mas isso é de pouco valor. Penso, mesmo, que terminaria voltando a minha antiga maneira de lidar com as coisas. Penso na precária educação que tive ou a quem (e isso recentemente surge com frequência) procuro culpar por meu isolamento.

 

Procuro ainda meus modelos para viver – tenho medo da minha própria capacidade de dar às costas para o mundo (e esquecer que o que espero dos outros é esperado, também, de mim). Preocupa-me não fazer parte na mesma medida em que preocupa-me fazer parte. Essa coisa de modelo, parte e todo sugere-me, novamente, a precária educação que tive... Aqui posso mencionar que – concluí isso apenas depois de algum tempo – foi dessa forma que comprei um piano. Independente do que eu trago comigo, penso oferecer (sempre os outros - chego a ter a sensação de uma vaga na altura do estômago) o que faço sobre o que trago comigo...

 

A que nível de estupidez eu próprio preciso chegar para conseguir uma história... Se há uma coisa que me deixa louco, é isso: colocar-me no lugar de um idiota apenas para ter a certeza de que é um idiota. Um dia deixo de desconfiar dessa minha intuição... Este velho morreu provavelmente acreditando que se tornou um pianista. Na verdade, foi só mais um destes velhos, que têm a capacidade de passar um dia inteiro na porta de um supermercado, que desapareceu. A diferença é que levou também o som horrível que fazia espancando aquele piano. E deu, sim, pelo menos a mim, uma grande alegria. 


por jeff@ig.com.br às 02h19 [   ]
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    (Abril / 006)


    Jefferson Alves de Lima, 33, jornalista, está a ponto de acreditar que vai dar para concluir o mestrado em Comunicação e Semiótica