::O AMOR DESCOBRE CADA LUGAR PARA TE ESQUECER::
Junto à notícia de que o famoso gigante Kjkj estava há poucos quilômetros da cidade, chegou a espantosa afirmação de que ele vinha para dar fim ao principal chefe do lugar. Como não havia um grande chefe no lugar - que tivesse o poder concentrado em si, mas apenas pessoas de poder limitado como o prefeito, o rico e próspero produtor, o chefe da igreja e, mesmo, um mendigo tido como sábio - ninguém conseguia calcular o que iria acontecer.
O prefeito, de qualquer forma, correu à rua e, mesmo antes do gigante atravessar a entrada da cidade, foi lhe dizendo que não passava de um político que governava para os interesses dos grandes proprietários e que, se havia na cidade um chefe, esse era o rico e próspero produtor. O gigante, sem parar um instante sequer seu passo, abaixou o braço, apanhou o prefeito e enquanto ele falava, estraçalhou-o, seguindo seu rumo.
Sabendo da intenção do gigante, o pequeno, mas rico e próspero produtor, organizou, da maneira que pôde e gastando uma quantia assombrosa de dinheiro, um espetáculo com helicópteros, balões de ar quente, desfiles de carros alegóricos, torres de luz, globo da morte e cuspidores de fogo no centro da cidade para receber o gigante. Quando o famoso Kjkj chegou, o rico empreendedor lhe disse que, em nome de Deus e de seu Filho sentado à sua direita, da Santíssima Trindade, dos sacramentos sagrados, das entrevisões dos apóstolos e das provações das quais se furtam os puros, disse que era ele um servidor dos desígnios Supremos e que, assim sendo, era a função, obrigação e dever dele sempre seguir o que o líder da igreja lhe ordenasse, coisa que levava o chefe da igreja a ser o maior e único chefe não apenas de toda a cidade mas, mesmo, de todas as almas do lugar. O gigante ouviu o que o rico produtor dizia e, antes de seguir pela avenida, esmagou-o, pisando sobre seu pequeno corpo.
Mais do que depressa o chefe da igreja reuniu um séquito de 12 Irmãs de Maria em frente à escadaria de sua igreja e, quando o gigante apontou no final da rua, começou a contar-lhe o quanto e de que forma acreditava que eram dos puros e livres de bens materiais as glórias do mundo. Enquanto ele ainda agitava o dedo e sugeria discretamente que o chefe do lugar era o mendigo, o gigante o espremeu entre os dedos e o atirou sobre o telhado da igreja.
O mendigo então afastou as pernas no chão, formando um V em torno de seu chapéu, e, quando o gigante chegou, agitou os dedos pedindo que ele se abaixasse um pouco. O gigante curvou minimamente a cabeça na direção do sábio mendigo, que suspirou num tom pesaroso, enquanto girava seu velho chapéu com a ponta dos dedos: - Eu falo dos outros, falo mal dos outros. É uma maneira de não pensar em mim e, ao mesmo tempo, só falar de mim.