::SUSPENSAS NO PRÓPRIO CRIME DE PROCURAREM RAZÃO PARA SI::

 

Depois que atravessou a poeira levantada por um carro que corria para fora da cidade, Sr. Propp poderia ser visto no alto do morro com uma grossa corrente sobre um dos ombros. Às suas costas, arrastado pelo ritmo de sua perna direita, vinha um caixão de madeira escura, com uma cruz prateada já coberta pela terra.

 

Como tivesse chegado a um ponto em que não poderia mais voltar, Propp parou, esfregou as costas da mão entre os olhos e atirou a vista abaixo, aonde deveria ser um grupo de homens reunidos ou algumas pilhas de pneus descartados ou tonéis de cerveja que seriam entregues a um caminhão de uma pequena transportadora.

 

Deixando a mão que segurava a corrente cair para o lado de sua cintura, Sr. Propp tratou, logo, de retomar o passo pois, como vinha, era capaz de não alcançar a cidade antes do sol desaparecer e ter, dessa maneira, de passar a noite em algum recuo da estrada, correndo o risco de, ainda assim, ser atropelado ou atacado pelos cães que deveriam por ali circular. A sugestão de uma dupla de cães atravessou estas suas idéias enquanto percebia a pequena estrada abrindo-se à sua frente como duas torres escondidas no fundo de uma lembrança que não conseguia distinguir claramente a que se referia.    

 

Poderiam ser dois edifícios de andares, duas colunas de uma varanda ou mesmo o pórtico de uma cidade. Essa última associação era a que Propp estava tentado a aceitar já que se adequava bastante a sua situação. De qualquer forma, Sr. Propp teve de abandonar essa distração que ia alimentando à medida em que, descendo, via a cidade se esconder entre os morros e ouvia, como de hábito, o caixão sendo marcado pelas pedras soltas sobre o chão.

 

Estava diante de um enorme fosso que separava os dois morros e que, pela escuridão das águas que tomavam todo caminho, deveria ser desagradavelmente fundo. Ainda que fosse possível (o que não era) tentar com que o caixão flutuasse por algum momento, Propp não conseguiria mais trazê-lo consigo, visto que teria de cruzar de uma maneira impossivelmente rápida a água para puxá-lo, da outra margem, pela corrente - antes de terminar por vê-lo afundando.

 

Sr. Propp, então, abriu o caixão, olhou todos os livros que havia reunido ali e duvidou que seria capaz de atirá-los dentro do fosso. Palavras que guardavam algo do caldo sujo e odioso em que surgiram, algo do surpreendente e do efêmero em que pela primeira vez brilharam, algo do desimportante e do banal em que poderiam ter aparecido, algo da expectativa e do desespero em que foram presas... No entanto, muito antes que a dúvida deixasse de ser um desafio, Propp empurrou o esquife com um dos pés para dentro da água e em seguida pulou ele próprio.

 

Quando tocou a margem que se estendia à sua frente e apoiou o corpo sobre os cotovelos para subir do peso das águas, Sr. Propp reparou em um pequeno escorpião que deslizava na direção contrária.


por jeff@ig.com.br às 13h24 [   ]
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    No parapeito baixo
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    Com as asas molhadas sob o sol,
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    (Abril / 006)



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    o azul, o amarelo e o vermelho,
    pelo que parece,
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    (Abril / 006)


    Jefferson Alves de Lima, nasceu em 1975, "odiei com muito empenho a poesia até os 25", está a ponto de acreditar que vai concluir o mestrado em Comunicação e Semiótica

    Ou só o do e-mail:jeffersonalvesdelima@hotmail.com