foto::Fábio Soares




_última atualização: 18 de OUTUBRO de 2006_

 

::DIVAGAÇÃO PARA SE LEVAR A UM VELÓRIO::

 

Oni estava no alto da torre quando a torneira começou a pingar. Arranjada entre um antigo conjunto de louça e azulejos cor-de-rosa, ela vertia água por cima, dentro da pia, e por baixo, formando uma poça logo abaixo do vaso sanitário. Esse vazamento na parte inferior, junto à junção de canos, no entanto, Oni só o tinha descoberto agora, quase cinco minutos depois de haver feito a primeira tentativa de acabar com o problema. A verdade é que a torneira, que apenas pingava, agora soltava água de forma fluente e ininterrupta. Parecia, mesmo, que, a cada investida de Oni em girar o registro ou fechar a saída de água enfiando os próprios dedos na torneira, o problema apenas piorava, fazendo já pequenos pedaços da massa branca que havia entre os azulejos caírem da parede. Oni, então, passou a considerar que se conseguisse deixar a torneira apenas pingando, como devia estar já há dias e ele, por estar mergulhado na pouca luz e nos problemas da torre, ainda não havia percebido, poderia conviver serenamente com a situação.

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::História de Hoje: NADANDO EM UM ARCO-ÍRIS DE GASOLINA::


Para Nina e João


Quatro elefantes reuniam-se com freqüência em um dos quartos do centro novo de São Paulo. Com os anos, de maneira natural, cada um deles passou a sentir-se proprietário de um dos cantos do quarto. O primeiro deles, estudante na escola de propaganda e marketing, falou gesticulando muito a pata aos outros: - Queria beber um pouco d’água mas estou muito longe da porta para ir até lá. Alguém pode ir para mim? O segundo, que usava um boné terrível da Natura, falou: - Eu iria, até porque gostaria de comer um pedaço de goiabada, mas tenho medo de escuro e, na cozinha, é bem provável que esteja escuro. Alguém pode ir para mim? O terceiro, então, falou: - Eu não tenho medo de escuro coisa alguma. Aliás acho isso uma grande bobagem mas, de qualquer forma, acredito que eu tenha um espinho enfiado numa de minhas patas traseiras e, assim, não posso andar ou sentirei dor. Quem for buscar água e goiabada, pode, por favor, trazer um médico, um bom médico para mim? Ainda mais gordo que os outros, o quarto elefante, que segurava um antigo minigame com Tetris na ponta da tromba, ergueu a vista aos três e falou - : Eu bem poderia ir até a cozinha buscar água, abrir a geladeira e trazer a goiabada, apanhar o telefone e chamar o médico mas o que proponho é descobrir qual de vocês, além de mim, também é capaz de fazer isso. E, assim, até hoje os quatro elefantes permanecem juntos em um dos prédios de apartamentos do centro.



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::DESISTA-ME::


O primeiro passo que Sami deu não foi reflexo de sua vontade mas de seu descontrole. Ele havia desistido e cantarolava já a música que vinha repetindo o dia inteiro - até parar e girar sobre os calcanhares. Diante das linhas sujas e descomunais que se tocavam entre a grande ponte de carros, o prédio e o horizonte de postes, a impotência de Sami tornou-se repentinamente risível mesmo para ele próprio. Mas isso no lugar de entronar uma situação divertida, como se poderia levar a acreditar, pelo contrário, eliminou uma tirada de humor. A certeza de que ele era, realmente, apenas um sussurro ridículo e incoerente deixado sozinho em um lugar visível falava diretamente à essa capacidade de apenas rir e seguir adiante.


O primeiro grito era contra Guemel, que pendurado sobre a torre do prédio falava aos cinco ou seis que resolveram lhe dar ouvidos, mas também era contra essa sua figura minúscula e possível de se descobrir esmagada entre triângulos e retângulos gigantescos. Mas talvez o vento estivesse ocupado demais com o vão que dividia as pistas e os carros e o vazio de todo conjunto porque não levou o grito de Sami. Ou, se levou, era Guemel que estava ocupado demais já que continuava falando e colocando pausas entre suas falas como se absolutamente nada houvesse acontecido.


Foi assim que Sami deu o primeiro passo. E enquanto ia, pé após pé, envolvendo-se com a vontade cansada de Guemel e colocando-se no lugar de um homem que apregoa desestímulos do alto de uma torre, Sami poderia, mesmo, ter acreditado que talvez a vida toda estivesse ali e não apenas Guemel, seu discurso vencido e cinco ou seis amigos seus dispostos a ouvir aquilo.

 




::BORBOLETAS EQUILIBRAM-SE NO ESPAÇO::



Eu vendo minha impermanência
feita nos círculos que crio,
a cidade que ando, a cidade que não ando,
o sono desperto na idéia do grafite frio,
e penso:



Yvo era um tipo de ombros estreitos,
desconfiado de si para além de qualquer outro.
Quando pediu à máscara para ter poder
- e mais do que isso, para irmos ao ponto – ser respeitado,
o fez de maneira cômica e descrente.
- E para que poder para mim?
Mas quando voltou-se para a rua,
depois de passar a chave na porta da Rua dos Douradores,
deixando o cargo de guarda-livros para o dia seguinte,
foi cumprimentado com delicadeza incomum pelo forte e espalhafatoso senhor Go.
Disse, mesmo, interessado, enquanto parecia enrolar os bigodes:
- Lhe foi bom o dia hoje, senhor Yvo?
Yvo lhe respondeu que sim e,
como não esperava tamanha corte vinda do senhor Go,
desvencilhou-se de maneira breve e apressada,
parecendo, mesmo, seco para quem o visse pelo outro lado da calçada.
A sensação era bastante estranha e,
antes que houvesse tempo de Yvo olhar para trás,
para confirmar que era o próprio senhor Go quem o havia entrevistado,
o senhor dono da loja de relógios correu em sua direção.
- Senhor Yvo, estava nesse instante, mesmo,
conversando com o senhor Go sobre o senhor,
disse a Yvo o dono da loja de relógios apertando-lhe a mão fraternalmente
- Trouxeram-me uma peça hoje que imagino que o senhor há de gostar.
Existe uma pequena história sobre ela
e se o senhor me dá o prazer,
hei de lhe contar.
Yvo inclinou a cabeça levemente procurando os olhos do dono da loja de relógios.



por jeff@ig.com.br às 22h38 [   ]
[ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]




[ O Tempo, Este de Cabelos Cansados ]



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    ::CHUVA::
    No parapeito baixo
    da janela rosa,
    algumas gotas cantoras
    subiam depois de tocar
    a terra branca e a grama nova.

    Aproveitando o dia claro,
    outras gotas davam à chuva
    aulas de brincadeiras infantis
    girando em torno de si próprias e
    depois deitadas com as horas do meio-dia
    no pequeno jogo de descobrir.

    Com as asas molhadas sob o sol,
    o carteiro assobiava,
    fazendo um bico dentro
    [da caixa de correspondência,
    que era uma sorte
    ninguém saber o que há depois da morte
    se não era bem capaz de aparecer um filha da puta
    dizendo que sabe de que maneira
    se deve viver.

    (Abril / 006)



    ::PÉS PEQUENOS
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    A QUALQUER MOMENTO::

    Alguma coisa já dita antes da Terra:
    Todo o problema é decalcar as palavras da abundância
    O inferno não conhece a fúria como palavra
    O corpo não conhece o sexo como palavra
    O silêncio, o escuro, o tempo,
    o azul, o amarelo e o vermelho,
    pelo que parece,
    não sabem das palavras

    (Abril / 006)


    Jefferson Alves de Lima, nasceu em 1975, "odiei com muito empenho a poesia até os 25", está a ponto de acreditar que vai concluir o mestrado em Comunicação e Semiótica

    Ou só o do e-mail:jeffersonalvesdelima@hotmail.com