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foto::Fábio Soares
::DIVAGAÇÃO PARA SE LEVAR A UM VELÓRIO:: Oni estava no alto da torre quando a torneira começou a pingar. Arranjada entre um antigo conjunto de louça e azulejos cor-de-rosa, ela vertia água por cima, dentro da pia, e por baixo, formando uma poça logo abaixo do vaso sanitário. Esse vazamento na parte inferior, junto à junção de canos, no entanto, Oni só o tinha descoberto agora, quase cinco minutos depois de haver feito a primeira tentativa de acabar com o problema. A verdade é que a torneira, que apenas pingava, agora soltava água de forma fluente e ininterrupta. Parecia, mesmo, que, a cada investida de Oni em girar o registro ou fechar a saída de água enfiando os próprios dedos na torneira, o problema apenas piorava, fazendo já pequenos pedaços da massa branca que havia entre os azulejos caírem da parede. Oni, então, passou a considerar que se conseguisse deixar a torneira apenas pingando, como devia estar já há dias e ele, por estar mergulhado na pouca luz e nos problemas da torre, ainda não havia percebido, poderia conviver serenamente com a situação.
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::História de Hoje: NADANDO EM UM ARCO-ÍRIS DE GASOLINA:: Para Nina e João Quatro elefantes reuniam-se com freqüência em um dos quartos do centro novo de São Paulo. Com os anos, de maneira natural, cada um deles passou a sentir-se proprietário de um dos cantos do quarto. O primeiro deles, estudante na escola de propaganda e marketing, falou gesticulando muito a pata aos outros: - Queria beber um pouco d’água mas estou muito longe da porta para ir até lá. Alguém pode ir para mim? O segundo, que usava um boné terrível da Natura, falou: - Eu iria, até porque gostaria de comer um pedaço de goiabada, mas tenho medo de escuro e, na cozinha, é bem provável que esteja escuro. Alguém pode ir para mim? O terceiro, então, falou: - Eu não tenho medo de escuro coisa alguma. Aliás acho isso uma grande bobagem mas, de qualquer forma, acredito que eu tenha um espinho enfiado numa de minhas patas traseiras e, assim, não posso andar ou sentirei dor. Quem for buscar água e goiabada, pode, por favor, trazer um médico, um bom médico para mim? Ainda mais gordo que os outros, o quarto elefante, que segurava um antigo minigame com Tetris na ponta da tromba, ergueu a vista aos três e falou - : Eu bem poderia ir até a cozinha buscar água, abrir a geladeira e trazer a goiabada, apanhar o telefone e chamar o médico mas o que proponho é descobrir qual de vocês, além de mim, também é capaz de fazer isso. E, assim, até hoje os quatro elefantes permanecem juntos em um dos prédios de apartamentos do centro. ---#---#---#---#---#---#---#---#---#---#---# ::DESISTA-ME:: O primeiro passo que Sami deu não foi reflexo de sua vontade mas de seu descontrole. Ele havia desistido e cantarolava já a música que vinha repetindo o dia inteiro - até parar e girar sobre os calcanhares. Diante das linhas sujas e descomunais que se tocavam entre a grande ponte de carros, o prédio e o horizonte de postes, a impotência de Sami tornou-se repentinamente risível mesmo para ele próprio. Mas isso no lugar de entronar uma situação divertida, como se poderia levar a acreditar, pelo contrário, eliminou uma tirada de humor. A certeza de que ele era, realmente, apenas um sussurro ridículo e incoerente deixado sozinho em um lugar visível falava diretamente à essa capacidade de apenas rir e seguir adiante. O primeiro grito era contra Guemel, que pendurado sobre a torre do prédio falava aos cinco ou seis que resolveram lhe dar ouvidos, mas também era contra essa sua figura minúscula e possível de se descobrir esmagada entre triângulos e retângulos gigantescos. Mas talvez o vento estivesse ocupado demais com o vão que dividia as pistas e os carros e o vazio de todo conjunto porque não levou o grito de Sami. Ou, se levou, era Guemel que estava ocupado demais já que continuava falando e colocando pausas entre suas falas como se absolutamente nada houvesse acontecido. Foi assim que Sami deu o primeiro passo. E enquanto ia, pé após pé, envolvendo-se com a vontade cansada de Guemel e colocando-se no lugar de um homem que apregoa desestímulos do alto de uma torre, Sami poderia, mesmo, ter acreditado que talvez a vida toda estivesse ali e não apenas Guemel, seu discurso vencido e cinco ou seis amigos seus dispostos a ouvir aquilo.
Eu vendo minha impermanência
por jeff@ig.com.br às 22h38 [ ] [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ] |
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