::NO TEMPO DA MÚSICA OU O MELHOR TEATRO É UM QUE REALIZA A CENA NO CENTRO DA SUA CABEÇA PORQUE DESSA VOCÊ NÃO VAI ESQUECER MAIS::

Um pensamento que não o lembro nem o esqueço mas apenas o rumino: daqui seja dez anos – o pensamento morno e vagaroso é que deixa-me com os olhos perdidos, terríveis, terríveis, perdidos – esse terá sido só meu abisminho de brinquedo – e esse é meu maior consolo – e o pior.

**

Existe um desenho ou uma proposta de esquinas nessa coisa de preparar três mentiras ao mesmo tempo. Posso imaginar que – com uma certa razão – elas e eu acabamos não indo – vou concordar que devíamos mostrar que estamos indo a algum lugar, por enquanto - e, nesse ritmo, faço das letras elenco impossível para o teatro do mundo; elenco improvável para o teatro do mundo; elenco incontável para o teatro do mundo; elenco vastíssimo para o teatro do mundo. 

 

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::A TERCEIRA METADE DO SÉCULO 20::


Quando o diretor de cinema independente Lee Porn sentou numa das poltronas do fundo para ver o filme, um fã o percebeu e praticamente voou entre as cadeiras para sentar a seu lado. Porn, que cultivava um rosto duro, japonês, viu irritado o homem apertar-se no escuro entre os assentos vazios - e calculou automaticamente sair antes que o filme acabasse. Mas tal era a forma com que o homem o olhava que Porn procurou a saída muito antes. “Um filme para chimpanzé e ainda esse porra. Indigno”. Mas Porn teria de voltar a pensar no homem. Na calçada em frente ao cinema, enquanto balançava o corpo alto e magro decidindo para onde iria, Porn viu no canto dos olhos o homem apertando-se entre as colunas do hall. Desceu à direita pensando que o pior “lhe abraçaria” se começasse uma conversa com esse tipo e, ainda na primeira quadra, olhou para trás esforçando-se em dar a impressão de que apenas prevenia-se para atravessar a rua e confirmou que estava sendo seguido – pouco depois o sujeito também cruzaria a rua. Porn entrou numa porta e viu que estava em uma loja de gatos. Em seguida entrava o homem. Porn, de cabeça baixa, revirava uma lata de sardinha nas mãos. Apertando-se contra as prateleiras, o homem, um tipo baixo e fraco, chegava discretamente próximo a Porn. Porn enfiou a lata de sardinhas no bolso do peito e passou rápido pelo tipo. O alarme da saída disparou quando Porn passou. Logo atrás de Porn apareceu o homem. Porn virou para a porta, tirou a arma da cintura e, enquanto a sirene convocava um pequeno grupo à saída, Porn deu três tiros nos sapatos do homem. O homem contorcia-se de dor, Porn, então, passou as sardinhas ao gerente pelo que foi cumprimentado.



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::CHUVA::

No parapeito baixo
da janela rosa,
algumas gotas cantoras
subiam depois de tocar
a terra branca e a grama nova.

Aproveitando o dia claro,
outras gotas davam à chuva
aulas de brincadeiras infantis
girando em torno de si próprias e
depois deitadas com as horas do meio-dia
no pequeno jogo de descobrir.

Com as asas molhadas sob o sol,
o carteiro assobiava,
fazendo um bico dentro
[da caixa de correspondência,
que era uma sorte
ninguém saber o que há depois da morte
se não era bem capaz de aparecer um filha da puta
dizendo que sabe de que maneira
se deve viver.


por jeff@ig.com.br às 01h55 [   ]
[ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]








::ORÍMBIO::

Se o homem dos livros tivesse em si
um homem de ação
terminaria num harakiri
com Mishima, dançando pro pelotão



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::TEATRO - ESÉRIA PELO SANGUE::

Atuam o pincel e o pintor diante da tela aberta,
a tinta do poeta contra os signos do finito,
o escultor pondo entre os dedos golpes de pedra.
- O homem diante do homem, com o corpo nu de ferramentas,
grava contra o ar homens imprevistos.

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::EU::



saúdo sozinho, à beira de uma estrada poeirenta, uma grandiosa conquista que tive. Naturalmente, ela não é ainda mais minha por isso e passo a encontrar o que pode haver de pior nela porque é dessa forma que vou olhá-la daqui para frente. Dela já fiz o comentário mais sujo e ridicularizante quando, adiante, paro com sonhos de comidas, cigarros e bebidas... Já havia me dela esquecido e dou por isso cheio de alegria, disposição e, mesmo, orgulho. Penso nisso por longos atalhos feitos entre árvores velhas e de uma normalidade estúpida e - como nada acrescenta-se a essas idéias - termino dizendo a mim mesmo o quanto estou cansado. Chego à pista remendada por asfaltos escuros sobre o asfalto antigo e claro tentando colocar-me acima disso já que se se vive de mentiras que vivamos das nossas próprias.


por jeff@ig.com.br às 01h51 [   ]
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::QUINZE MINUTOS PARA AS TRÊS HORAS DA LUA::

Havia um elevador que viajava na horizontal entre três grandes prédios de andares. Euco trocava o peso sobre uma nádega e outra: “Eu descobri formigas vermelhas e escuras e uma enormidade de pequenos insetos saindo de minha mala”. Recusei-me a dizer: “sei”. “Você ficou com nojo de mim porque coloquei-me como fiel da balança, não é?” Como alguém podia ser tão sincero? Havia um corredor desenhado artisticamente pela luz quando atiramos – uma coreografia cavilar - as almofadas no chão e descemos do elevador. “Olha: a vida é uma farsa em que o papel do louco sempre cabe a jovens atores”. Euco andava atrás de mim, falando no “céu das minhas orelhas”, um jogo de teatro com noivas só de grinalda e calcinha. Tive de me voltar para lhe perguntar: “o que é isso? Você decorou essa frase por partes ou ensaiou só a idéia e decidiu improvisar o resto?”. “Não, não. Eu invisto sobre o mundo desperto e é isso o que te deixa vendo-se como um vicário.” N-Ã-O, falei com pressa, dando a Euco alguma superioridade sobre mim. A lucidez demente e a brincadeira com o dicionário tinha já demais cheiro do hospital de Cortázar. Acolitar, solferino, conúbio. Jesus querido! É esse o tipo de gato por lebre que a vida está te vendendo a todo momento. Pedi a ele que me esperasse do lado de fora e apertei seu nariz com a ponta do alicate de cortar pregos: aqui entendeu? Segui com a cabeça inclinada - buscando com os ouvidos - gota a gota os lamentos do corredor. Ouvia o tapete vermelho ceder ao meu peso e a língua conhecida da lamúria se aproximando do terrível. Quando parei em frente à sua porta, deixei transparecer alguma coisa através de mim e toda a cara de concentração que eu fazia e, de súbito, encontrei o tom: “até onde posso olhar daqui, não consigo ver o descontrole puro e simples”, disse para ela ainda segurando a maçaneta da porta. Então o que quer Medéia é um amor obrigatório e grato? Desculpa, Medéia, mas você própria nos condena à impossibilidade. Um dia teríamos nosso fim de qualquer forma, não é? Escuta: não faço a defesa da autoimolação, mas acredito que você conheça isso tanto quanto eu: a abundância de vida pede o fim da própria vida. Somos duas pessoas. Não imponha a mim ser todas as alternativas de sua vida, está bem? Posso ainda estar um pouco confuso mas não é novidade para mim, ou para você, isso de o réptil que cospe fogo, nascido do limo da Terra, existir dentro de nós. Digo: não é contra ele que invisto mas a nosso favor. Quero dizer, sei que existe um rio só para a ousadia e para a presunção e que o chamam de Pó, mas espero não caminhar para um afogamento como esse, entende? Não quero te iluminar aonde isso vai dar, não é isso. Mas, vamos lá, Mê, a gente é quem tem o fim do mundo. O dos outros, mesmo contra a nossa vontade, o mundo dos outros esse vai continuar. Ouve seu corpo – uma vez que seja. O que podemos é ir até onde o fim aceita. Isso pode parecer tautológico até demais mas, para dizer num exemplo, penso em Ídmon. Quando Ídmon viu o tamanho da ruína que era carregar o mundo nas costas, preferiu os carinhos de fogueira de uma cobra. Pela razão eu não chego a lugar algum ao seu lado. Não precisa repetir “pensa bem”. Vibremos com a vida. Eu não sei outra maneira de andar pelo mundo. Não quero um amor obrigatório e grato e talvez seja para o rio Pó, mesmo, que iremos. Mas não queria – ainda que isso pareça contraditório – , não queria acelerar minha (e também a sua, ou não?) queda numa água como essa por conta de ousadia ou de uma falta de jogo de cintura. Sinto que Euco me diria que todos meus argumentos seriam um extintor de gasolina para essa sua fogueira, Mê. Um beijo. Do seu J.


por jeff@ig.com.br às 01h49 [   ]
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::ANO 2066. DENTRO DA NOITE. LUZ EM RESISTÊNCIA::

“a noite com Talita e o jogo da amarelinha, uma encruzilhada de linhas, ignorando-se umas às outras”
J. Cortázar


- Essa euforia na ponta dos dedos tem relação com o final do dia?
- Tem.
- A carne da noite?
- Olha, não sei o que você quer que eu revele com uma isca tão obscura como “carne da noite” mas, sim, é sobre a noite.
- Uma entrada no silêncio e na solidão de uma calçada escondida sob as árvores dentro da noite. Entende o que eu chamo de carne da noite?
- Silêncio e solidão?
- Apesar da cidade inteira do lado de fora.
- Qual a cidade inteira? Porque você vê 30 ou, andando muito mesmo, 50 ruas, você fala em cidade inteira?
- Daqui eu vejo que ela existe, nós sabemos que ela existe... Não para mim ou para você ou cada um dos outros mas, como idéia, ela existe.
- Vamos deixar isso para sua primeira pergunta: ela é para mim, você e os outros, coisas totalmente diferentes feitas das mesmas informações. Ajudei?
- Pelo menos diminuiu a minha – e a sua, ou não?- sensação de perda de tempo.
- Mmm... Só?
- Liberou-me.
- Do que?
- De dúvidas.
- Sobre o que?
- Minhas próprias energias plenas.
- Você sempre usa essa linguagem obscura?
- Só quando estou tentando criar uma verdade.








::À “ANGÚSTIA” DE RIMBAUD::

É bem provável que a angústia me faça perdoar
quem dia-a-dia esmaga as próprias ambições.
Há algum porquê em aceitar, com todo o ser,
tornar-se um indigente?
Um fim cômodo é sobre o que sei.

E que um dia de êxito é o bastante
para se ver que não existe nada mais do que
apenas os próprios dias.

Mas há as palmas, os diamantes, amor, força,
todas as alegrias e glórias.
Há todas as partes e todo o mundo.
Deuses e demônios.
A juventude, meu eu.

Há magos e atores,
pessoas que levam presentes a crianças recém-nascidas
e a gente que se engana para os outros acreditarem.

Mas essa mesma angústia que nos torna gentis,
nos faz imaginar que correr para o nosso próprio fim
ou à confusão foi uma opção.

Correr e, sem mais nenhum fôlego,
acreditar que ainda há uma comprida travessa e música.


por jeff@ig.com.br às 01h47 [   ]
[ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]








::UM POUCO DAQUILO::

Eu freqüento um bar do centro
Eu freqüento um bar do centro

Quando não falamos sobre lutas e drogas que não se pode usar
Alguém fala sobre bebidas e coisas certas para se comprar
É muito difícil se falar sobre outra coisa aqui

Eu freqüento um bar do centro
Eu freqüento um bar do centro

Você bebe e traga
Como as pombas na saída de descarga
Olhando o ar ruidosamente estúpido que existe aqui

 

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::MACABÉA SÓ PODIA TER MORRIDO ATROPELADA::

 

Não se podia dizer que A. estivesse com a cara encostada no alambrado simplesmente porque havia entre ele e a grade sua própria mão, que agarrava a cerca na altura da testa. O sol e o céu, azul e limpo, pareciam prontos a engolir quem se ocupasse demais com eles. 

 

L., a seu lado, freqüentemente virava de lado para cuspir ou puxar um gole da cerveja em lata que girava numa das mãos e, como A., conseguia fazer tudo isso sem tirar um segundo os olhos do verde e do bege do campo lá embaixo. V., levando as duas mãos para cima do alambrado, levantava também o pequeno rádio que explicava o que não conseguia entender olhando o estádio de tão longe. Sendo a menor ou a melhor tentativa de E., logo a seu lado, em comentar algo, ele acenava muito rápido com um gesto de cabeça e voltava a meter os olhos entre a tropa vestida de negro que buscava de toda forma enfiar uma bola no gol adversário.

 

Salva-se como pode. Recolheu no meio-de-campo e vem ataque novamente. S. gritava palavras que, se não chegavam a formar uma frase, completavam a sensação de alguém profundamente tomado pela cena que estava vendo. Chamava os homens pelos números das camisas e impunha uma versão terrivelmente lúcida (era isso o que via) sobre o que estava enxergando. D., a seu lado, embora quieto, a cada minuto que corria ia vendo sua opinião sobre o jogo sendo desenhada por esse envolvimento completo de S..

 

O que o juiz viu ali? Vai dar reversão do lateral. Você sabe onde está, você está com a gente. E., sob um anedótico chapéu côco, concordava ou reprovava o que via acontecendo na grama lá embaixo com breves movimentos de cabeça. Agora, no entanto, esticou o pescoço, prendeu a respiração e, preparando-se para algo que enxergava nascendo, teve de soltar um suspiro alto e um palavrão a assegurar que o que via poderia ter sido melhor.

 

L. e I., ambos com as duas mãos no alto da grade, conversavam baixo entre si, como se rezassem ou apenas adivinhassem uma situação que já conheciam. I., entretanto, vibrava a menor conquista de território da incrível tropa negra que avançava incessantemente. Na ponta, rolando um pequeno toco de madeira sob um dos pés, M. suspendeu sua primeira lembrança do dia sobre o que teria a fazer no dia seguinte da mesma maneira que suspendeu as mãos abertas mecanicamente sobre o alambrado. Ganhou o meio, vai arriscar. Quando o último A. gritou o que estava pronto para acontecer, pouquíssimos segundos depois o primeiro A. estava no alto da cerca tremendo a voz num urro.


por jeff@ig.com.br às 01h45 [   ]
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::DOIS PIANOS ALMOÇAM EM FRENTE À FUNERÁRIA::


Um mágico não é nada e é o que ele quiser (é por isso que também pode ser até nada). Fiquei um pouco confuso. Mas isso era já filosofia – e eu gostava disso. Viver não pode ser somente Chamar a Atenção? Estávamos ficando um pouco sérios. Levantei imaginando se ela viria atrás de mim no mesmo momento ou depois de um segundo.

Quando saí e virei para a direita – eu fazia isso a toda hora; quando não sabia exatamente o que estava tentando fazer, pegava a calçada para o lado direito – ela pôs o rosto sobre meu ombro e percebi que – além de ser ela mesma quem estava ali porque o cheiro dos cabelos era uma das suas (melhores e principais) referências – percebi que ela havia puxado o ar para soltar uma primeira sílaba.

Olhei, com muito empenho, exatamente para o lado contrário, preocupado em lhe dar a perfeita idéia de alguém muito distraído, que não percebe o que está acontecendo mesmo sobre seu ombro. Eu não sabia o que estava fazendo e ignorá-la de uma maneira ostensiva me pareceu o princípio de alguma coisa. Ela continuava andando a meu lado quando percebemos, os dois, já alguns metros da calçada ficando para trás.

Eu falaria aqui que estávamos já conversando e que a coisa toda da telepatia é apenas isso: um diálogo franco e declarado entre a porta de um hotel e uma estação do metrô. Mas poderia exagerar demais e dar uma idéia que não coincidiria com um sujeito de sobretudo cinza e chapéu preto saindo de um hotel, virando a direita e tendo uma mulher de vermelho e passos curtos andando com o rosto virado para ele e sabendo que daqui a pouco ele diria alguma coisa sem sentido.

Com gestos muito semelhantes de quem busca relaxar, os dois pararam em frente à faixa de trânsito esperando o clique surdo que a caixa da companhia de tráfego, próxima a alguma das quatro esquinas do cruzamento, soltaria no segundo em que um sinal vermelho fosse trocado por um verde.

Fiquei mais confuso por ela NÃO começar a falar o que a sílaba pronta em sua boca tinha iniciado e, então, falei sobre a habilidade dos mágicos em não serem nada e, ao mesmo tempo, serem o que quisessem, inclusive por isso bem podiam ser até nada. Gostei daquele começo e passei a pensar em comprar, de uma vez por todas, uma cartola e, talvez, as luvas de pelica.

Puxei o rosto DELE um pouco para o meu lado (eu ainda estava parada diante da faixa de trânsito, tirando com minha outra mão uma linha branca do vermelho do meu vestido) e, trocando o peso de uma perna para outra, disse que, de verdade, esperava, mesmo, que ele "fosse começar com uma frase sem sentido".



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::MELODIA::

Atrás dos portões devem estar os gritos nos quintais,
os assoalhos de madeira escura
e os nomes de quem já morreu.

Há duas pessoas sendo empurradas de dentro
de uma grande e velha casa de esquina.
Rolam juntas para a rua.
Visito minha memória com um pé-de-cabra numa das mãos.

Um horizonte curto, logo ali, e desconhecido como todos.
Se fizessem calçadas largas como essas,
o que se fariam com sonhos e aparelhos de som?

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::III::

Só eu sei o inferno que carrego comigo.
A segunda realidade já me sufoca como essa.
Qualquer dia, procuro um par de asas,
entrego-me a meu ódio, preocupando-me muito pouco
se descerão da calçada ao ver-me,
se me esqueci de ser cordial ou machista.
Qualquer dia canto
- A quaresmeira floresceu em roxo e rosa
filtrando o cheiro do sol e o acordo primevo, entre os homens, ganhou o nome Deus.
- e volto ao convívio tanto ou mais odioso como me faço forte.
Tanto ou mais odioso como me faço forte.


por jeff@ig.com.br às 01h42 [   ]
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::KAVIDK::

Num dia quente que leva o sol a recuar
meio passo atrás depois de ter visto
o que ele próprio faz aqui embaixo num dia como todos
cansado de gente trabalhando para cima e para baixo.

Um dia que tem desejo próprio: a metade do dia
seja sempre, num dia com gente levando flores nos braços
em cortejo silente.

Não é para meu túmulo ou para os dois velórios
que sei ter havido nessa semana.
Flores para surpreender.
- Os homens têm vontades semelhantes e poderes diferentes?

**

Ouve a história jogando com o ar.
Tem medo de ficar
e se desespera com a idéia de passar.

Chegamos ao sótão escuro,
quartos com papel-de-parede recém-aplicado,
pensões dirigidas por uma sra. Grubach
e também à sarapalha no mínimo tempo de inversão
do dijuntor de uma luz elétrica.

No chão castanho, sobre a grande pedra,
eu a vi doce domesticar o antigo crocodilo.
Eu lia ali: Eu sou a distância dos excessos
Mas sou o próprio excesso.

Ao homem – esse que depende de uma segunda realidade.
E ao telefone - essa invenção que pretende ser dela a missão
de introduzir um conflito novo.



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::PÉS PEQUENOS E PRONTOS PARA DANÇAR A QUALQUER MOMENTO::

Alguma coisa já dita antes da Terra:
Todo o problema é decalcaras palavras da abundância
O inferno não conhece a fúria como palavra
O corpo não conhece o sexo como palavra
O silêncio, o escuro, o tempo,
o azul, o amarelo e o vermelho
não sabem das palavras


A Plenos Pulmõesss # A Plenos Pulmõesss # A Plenos Pulmõesss#

  • De uma Esquina a Outra: Jefferson Alves de Lima

  • por jeff@ig.com.br às 01h21 [   ]
    [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]






    Fábio Soares


    ::EU TE PRENDEREI NO MEU ICEBERG - UM MICRO 'MURKY MOVIE'::

    O que se vê sobre a
    rua
    na massa coberta
    pela falta de sentido
    em se apertar entre o escuro
    da noite,
    o branco e o vermelho das lanternas dos carros,
    a desesperança
    dos que vão
    aos montes pelas estreitíssimas calçadas:
    os grandes
    acontecimentos, se há,
    sobem parapeitos construídos com flores
    durante o
    dia e agitam-se em escarpados
    a beira dos mares, soprando promessas
    frias,
    a noite, porque viver, realmente, de verdade é algo duro.

    por jeff@ig.com.br às 01h13 [   ]
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    ::AUTÓGRAFO PARA DIAS DE ÓDIO::

    Ser é tão difícil e o mar não sabe disso.
    Jamais contou que não quer procurar mais por saída,
    que quer esquecer de fazer o cálculo do futuro,
    que não quer ter vergonha em descobrir que há a hora de pensar nele próprio.
    Jamais ouviu-se dele que se preocupa com um nome curto, simples e radiante para se apresentar,
    que utiliza adjetivos como presentes terríveis dados a si mesmo.
    Jamais se ouviu que a baixa luz e elevadores contam-lhe durante a noite histórias indecifráveis.
    Que as manhãs de sol o animam ou os finais de tarde o entristecem.
    Jamais se ouviu que dias de sol, ruas e árvores estão em todas suas idéias sobre histórias agradáveis.
    O mar incontável. Sem pressa de envelhecer ou febre de ser luminosamente jovem.



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    ::CÍRCULO::

    Esperei primeiro a noite chegar
    mas não era a noite, era o escuro o que esperava.
    Quando o escuro aumentou com a madrugada já quieta,
    vi que era o medo que esperava.
    Enquanto calculava uma alternativa mecânica para acelerar
    a chegada do medo – ia rindo pelo nariz; conhecido da abstração  - o dia vagarosamente foi levantando-se à frente.
    Dentro, a vitrola dizia já há minutos que o disco tinha novamente terminado.
    Descobri que não era o medo que devia esperar
    mas ser surpreendido e isso não sabia como esperar.
    Esperava o dia chegar.
    Levantei do chão e produzi um ruído enquanto tentava coçar a garganta fechando a boca e soprando o ar para o nariz.



    ::ESTRELAS NÃO CONHECEM JORNADAS::

    Vamos pensar que eu não penso em nada para além da minha vida. E, vamos mesmo, pensar que isso é uma pequena lição de prós e contras e a coisa toda. O que eu digo é que ainda que estivéssemos diante de um legítimo e completo baralho que acabaramos de inventar, importava, a mim, minha vida – com o desenho que ela apresentasse naquele único minuto. Retirei o copo do balcão e o prendi entre a mão e minha perna. Eu não sabia aonde aquilo poderia parar. “Olha bem”, disse a ele enquanto ajustava o copo no centro da minha mão. “Talvez isso seja...”. “Esquece”, terminei dizendo a ele e procurei um lugar bom para dançar.

    Preciso dizer que, sempre que desencadeava aquilo tudo, fazia como a melhor coisa que se tinha a ser feita, ficando, assim, completamente à vontade. Comecei, mesmo, já na segunda vez em que aconteceu, a criar uma entonação de voz e uma maneira de alisar meu pescoço com a ponta das unhas, de baixo para cima, enquanto dizia “esquece”.

    Vamos dizer: a princípio falava isso de maneira quase sem cor. Preocupava-me em deixar a interpretação ir de encontro à capacidade de quem eu estivesse dirigindo-me. Quando via uma mulher bela, por exemplo, mas que mostrava um fundo de calças terrivelmente mal remendado, não lhe contava o que aquilo significava - como passou a acontecer adiante.

    Por essa época apenas dizia: “Esquece”. Em pouquíssimos meses, entretanto, toda a inferioridade que um fundo de calças mal remendado pudesse revelar era explicitado - mais do que na forma como passei a dizer “esquece” – no porquê eu estava dizendo a alguém: “quer saber de uma coisa? Esquece. Olha bem para esse fundo de suas calças remendadas”.

    Poderia usar nove exemplos como faz meu amigo Clodon Senardes - o velho peidorrento do sindicato dos gráficos para o resto do cosmo – quando busca contar como a coisa toda começa e como volta a si mesma como o próprio número nove. Quer dizer, poderia usar uma seqüência imagética inteira e um pouco de música para fazer aparecer como uma bonita mágica o 9 ou 1 + 2 + 3 + 4 + 5 + 6 + 7 + 8 + 9 = 45 = 4 + 5 = 9.

    Mas, como a tentar fazer exatamente isso de outro jeito, prefiro contar apenas que estava me ‘encontrando’ com essa FORMA de conduzir as coisas e que - aí que quero chegar - já não a fazia como uma saída inteligente ou civilizada ou, que seja lá, elegante e “de bem com a vida”. Porra nenhuma. Caziobe ia se tornando um homem desagradável a todos. Discutia com uma mesma linguagem em todos os lugares, como se conversar sobre mulheres num fundo de um bar ou acariciar a mão de uma própria mulher enquanto se fala com ela pudessem ser exatamente a mesma coisa quando se tem coragem e uma ‘clara consciência’ dos ‘personagens sociais’ que vão sendo assumidos ‘sob inconsciência’.

    Sua expectativa em relação a isso tinha nascido com os palavrões. Não poderiam haver lugares em que se pode falar palavrões como “porra nenhuma” e outros em que isso não pudesse ser feito. Sua expectativa era a de que tinha encontrado um bom (mas sobretudo divertido) princípio para se desafiar o teatro do mundo, desobrigando-se de se hospedar “segundo o número de estrelas”.

    De qualquer forma, deviam ser 20h33 quando provavelmente o “esquece” de número nove de Caziobe – para se pensar que era esse o número, é necessário levar em consideração estar certa a técnica de fazer esse tipo de contas do presidente do sindicato dos gráficos, o velho polido e presunçoso Clodon Senardes. Mas, dizia, deviam ser 20h33 quando o “esquece” provavelmente de número nove de Caziobe começou a abandonar o ‘o silêncio inumano’ para se revelar como paradigma.

    Se todos os detalhes destes seis minutos em que a coisa de Caziobe aconteceu fossem contados, o resultado seria algo extenso – para não usar a palavra ‘abominável’. De forma que aqui se terá apenas a essência e uma vontade de que isso estimule o próprio Caziobe a escrever um livro desta sua experiência sob a temperatura da primeira pessoa. Espero, de qualquer forma, ainda conseguir algo deste calor – ainda que sendo sucinto:

    Havia três pessoas numa sala com um fundo profundamente escuro. Uma destas pessoas era Caziobe. Próxima à porta, no único lugar em que havia luz, estava uma mesa de madeira escura e comprida e, numa de suas pontas, uma outra bastante menor mas igualmente feita de madeira escura. Caziobe e as outras duas figuras desenvolviam alguma espécie de jogo utilizando essas duas mesas. Por volta das 20h33 é possível se saber que o que disputam é um jogo inventado exatamente por essas três figuras e que, para irritação das duas outras, Caziobe passa a ridicularizar a invenção que, além das mesas pavorosamente velhas e mal cuidadas, utiliza imitações de pequenos sapatos feitas com papel molhado aquecido ao sol.

    A mesa menor cede em uma de suas pernas já tortas e, então, Caziobe atira o sapato feito de papel sobre a mesa maior e diz: “Esquece”, saindo da sala. Quando atravessa o umbral, além de caminhar balançando os ombros de uma maneira que vinha preparando há dias,
    passa a misturar um maço de cartas de um baralho que arranca do bolso. Descobre, terrificado, que todas as cartas são O Mundo.


    por jeff@ig.com.br às 01h13 [   ]
    [ ::Há um Click Dentro da Mão:: ]






    As bonitas fotos em PB que giram por aqui agora têm estética com nome e sobrenome: O FOTÓGRAFO E 'SCALATION HERO' FÁBIO SOARES.
    Abaixo, uma mostra dos disparos de mr. FS que passam a ilustrar a página.

    Fábio Soares


    Fábio Soares


    Fábio Soares



    Fábio Soares





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    ::PLETORA É...::

    Demorei um pouco no arquivo. Eu estava, mesmo, cansado. Quando voltei, ainda, me curvei um minuto inteiro embaixo da mesa antes de chamar o próximo caso. – Sr. Édipo. Expliquei o caso o mais rápido que pude erguendo o microfilme contra a luz sem fazer, no entanto, questão que o sujeito entendesse alguma coisa daquilo. - Sr Édipo, no seu caso o senhor, olha aqui, NÃO está cumprindo o SEU destino mas sendo atropelado pelo destino de toda a humanidade. É o que chamam de busca pela perpetuação da espécie. Quer dizer, o senhor está no meio do caminho do “crescei-vos e multiplicai-vos”, que é como falam os evangelhos, entende?

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    ::ENQUANTO O MUNDO EXPLODE::
    À ‘casa’ Chico Science & Nação Zumbi

    No silêncio de tudo, a reunião do tempo
    À direita, à esquerda e acabando de encostar a porta
    enquanto pede desculpas pelo atraso
    O hoje o ontem o amanhã esse que acabou de chegar
    Me ocorreu que sobre o que conversavam era um verso
    Quatro frases de clarim
    Mas enquanto o mundo explode
    nós dormimos no silêncio do bairro
    fechando os olhos e mordendo os lábios
    sinto vontade de fazer muita coisa

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    ::TENTATIVA Nº 1975 - CASTO E PURO::

    Uma coisa que me deixa maluco é ficar uma semana inteira sem dinheiro. E, desde que virou o mês, quer dizer há duas semanas, estou indo a pé de casa para a loja, o que dá umas malditas 300 mil quadras. Acontece que, hoje pela manhã, a calça mais limpa que eu tinha era uma que eu usei duas ou três vezes e enfiei no fundo do armário. E, aí é que está a coisa toda, quando eu dei uma passadinha com as mãos nas pernas para desamassar o maldito tergal verde e horrível dela, eu descobri uma nota de 50 no bolso da frente. Digo isso porque, na mesma hora que vi a nota, falei baixinho: nossa, hoje vou tomar uma cervejinha. Na hora, pensei, mesmo, em não ir trabalhar. Arrumar um resfriado ou coisa que o valha. Mas fui beber, mesmo, só na volta. De qualquer forma, tinha me preparado o dia inteiro para pegar um porre daqueles.

    Acontece que eu mal tinha começado e uma dessas figuras que estudou com você ou trabalhou com você ou viajou numa excursão horrível para um lixo de um hotel fazenda horrível com você ou também teve problemas na droga do recadastramento do CPF como você ou estava num ônibus velho e caindo aos pedaços que quebrou no meio do domingo com você, quer dizer, um desses tipos cretinos que adoram conversar, encostou e arregalou a cara toda pronto para perguntar uma coisa assim como “lembra de mim?/o que você está fazendo aqui?” e essa cretinice toda. A primeiríssima coisa que eu fiz, antes que ele abrisse a boca e começasse a me convencer de que ele não era o tipo mais desagradável naquele momento, foi chamar o garçom e perguntar se não era o caso de suspender a... suspender a...

    Disse isso assim mesmo, duas vezes, e fiquei com o indicador suspenso como o desses mágicos que não têm muito mais do que os dedos e uma capa velha e surrada. Minha idéia era assustá-lo e, fazendo um círculo lento da direita para a esquerda com o dedo, diante da cara dele, que se curvava suavemente para frente, disse: - Não era o caso de suspender a figura da serpente? Tudo bem que um passarinho bicando a graminha, ainda que esteja matando centenas de insetos para comer, é “bonitinho” e que a serpente é um esôfago que rasteja. Mas se a serpente deu a tal maçã da sabedoria para o homem não foi dizendo, simplesmente e pelo exemplo, que não existe esse paraíso imóvel mas, sim, sempre a vida alimentada pela morte? Somos, de verdade, muito maus com a serpente. Eu estava, realmente, inspirado e aí fui emendando: - O Campbell sabe disso. É o homem quem precisa inventar Deus e não a serpente.

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    ::RAIO::

    Por que o receio?
    Desnudei meu cérebro à luz do dia:
    Ali estavam os tais heróis.
    Era deprimente aquilo.
    Haviam se afundado, sim,
    em busca de uma dose violenta de
    qualquer coisa, estavam, sim,
    bebendo cerveja já choca
    sentados em capengas bancos de madeira,
    assistindo a uma cebola ser chutada no asfalto,
    e quando o que tinha os pés mais inchados
    [se levantou,
    tinham longas e edificantes mensagens sobre a vida em que
    sempre faltava o verbo, e voltou com um livro sem capa
    (era “Uivo”, de Allen Ginsberg), uma dor difusa
    levou a mão em meu estômago e eu tive, assim,
    um dó assustado até de mim mesmo.
    Despedindo-se quieta, a angústia,
    a pior das palavras, a tal catedral
    sem esperança
    - Esse é o tipo de luz que
    Eu queria encontrar uma ficha, enfiá-la
    numa máquina e, de caso pensado, inventar
    uma cena


    por jeff@ig.com.br às 01h03 [   ]
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    ::OFÉLIA::
    Delicadeza de fogueira

    com considerações a E. Morin

    Por trás de um único e evidente
    eu te amo há uma galáxia inteira,
    sublime como o namoro
    nascente

    Adolescência: que
    incapacidade de te negar

     

    Walt Whitman, Salinger, Faulkner, William Blake, Rilke, Rimbaud, Dostoiévski, Raduan Nassar, Henry Miller, Georges Bataille, Eugene O’Neill, Tennesse Williams, Kerouac, Cassidy, Allen Ginsberg, Márcia Denser, Erasmo, Caio Fernando Abreu, Arthur Schnitzler, Somerset Maughan, John Fante, Genet, Roddy Doyle, Bukowski, Hemingway, Lawrence Ferlinghetti, Simone de Beauvoir, Gabriel García Márquez, Scott Fitzgerald, Graciliano Ramos, Quintana, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Ítalo Calvino, Fernando Bonassi, Marçal Aquino, Adélia Prado, Ana Miranda, Cíntia Moscovich, Elvira Vigna, Carlos Heitor Cony, Rubens Figueiredo, Sérgio Sant'anna, Marcelo Mirisola, Nietzsche, Paulo Francis, Sófocles, Ésquilo, Aristóteles, Platão, Sócrates, Pitágoras, Bellow, Nabokov, Thomas Mann, Italo Svevo, Hermann Hesse, João Ubaldo Ribeiro, Veríssimo, Conrad, John dos Passos, Marcel Proust, Marguerite Duras, Gogol, Tchecov, Plínio Marcos, Borges, Piglia, Mempo Giardinelli, Rubem Braga, Heiner Müller, Sam Shepard, Neruda, Virgínia Woolf, Octavio Paz, T.S. Eliot, Sylvia Plath, Shakespeare, W. Salomão, Kafka, Ana C. Cesar, C.G. Jung, Yeats, Nelson Rodrigues, Julio Cortázar, Clarice Lispector, Eurípides, J. Joyce, Albert Camus, Rubem Fonseca, Connan Doyle, Vargas Llosa, Goethe, Leminski, Mishima, Becket, Grotowski, Poe, D. H. Lawrence, Ernst Cassirer, John Milton, Dante Alighieri, Fernando Pessoa, George Orwell, Jack London, Dalton Trevisan, Lima Barreto, Eça de Queirós, Gustave Flaubert, Oscar Wilde, Aluísio Azevedo, Alváres de Azevedo, Baudelaire, Ovídio, Virgílio, Homero, Camões, Tobias Wolff, Tom Wolfe, Bierce, Ray Bradbury, Nelson Blond, Léon Bloy, Marcel Schwob, H. G. Wells, Nathaniel Bierce, May Sinclair, Gilbert Chesterton, Ellery Queen, Infante D. Juan Manuel, Lord Dunsany, Eden Phillpotts, Robert Stevenson, Arthur Machen, O. Henry, Casares, John Steinbeck, Robert Musil, Alphonse de Lamartine, Alfred de Vigny, Victor Hugo, Honoré de Balzac, Sainte-Beuve, Félix Arvers, Charles Cros, José-Maria de Heredia, Paul Verlaine, Tristan Corbière, Lautréamont, Georges Boutelleau, Germain Nouveau, Jules Laforgue, Jean Moréas, Miguel de Cervantes, Leon Tolstói, Charles Perrault, Edmond Rostand, François Villon, Jean de la Fontaine, Rabelais, Jacob Grimm, Wilhelm Grimm, Christian Andersen, Lewis Carrol, Ivan Turguéniev, Asimov, Ionesco, Zola, Kant, Alexandre Dumas, Ernesto Sábato, Alessandro Manzoni, Emily Bronte, Aldous Huxley, Charles Dickens, Gabrielle Colete, Jonathan Swift, Henri Fielding, Giovanni Bocaccio, Truman Capote, Graham Greene, Umberto Eco, Marguerite Yourcenar, William Golding, Roland Barthes, Petrarca, Bocage, Lorenzo de Medici, Pierre Rosnard, Fraçois de Malherbe, Moliére, Racine, Heinrich Heine, Gérard de Nerval, Gautier, Tennyson, Robert Browning, Lisle, Musset, Murger, Rosseti, Meredith, Emily Dckinson, Suly Prudhomme, Mallarmé, Derouléde, Willian Ernest Henley, Paul Bourget, Rudyard Kipling, Apollinaire, Stefan Zweig, Duhamel, Francis James, Blaise Cendrars, Federico Garcia Lorca, Alcayaga.


     


    por jeff@ig.com.br às 00h50 [   ]
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    ::FRENTE E VERSO::

    Escreverei um poema já morto
    nele eu resoluto
    com aos jovens um canto
    dou testemunho do tanto quanto
    foi bom dançar absorto Meu
    mais alheio minuto

    Escreverei um poema já morto
    nele eu resoluto
    com aos jovens um canto
    dou testemunho do tanto quanto
    foi meu dançar absorto o
    mais alheio minuto

    sonhei já duas vezes:
    num momento repentino,
    Sou um sabujo de cartola cansado de bater uma punheta
    Sou um artista começando... a não ter o de beber, WS.
    Haja marginal haja herói
    Haja marginal dodói



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    ::JOGO::

    O que está aí feito luz acesa de dia
    e da fúria não mais dançar a alegria
    O concerto inteiro do coto em tambor
    O filhadaputa dançando, dançando [dançou
    E o que mais
    Vimos o ator se machucando em cena aberta
    numa rubrica em que deveria entrar numa sala
    cheia de ausência humana
    - Acender uma vela não é tão fútil? (dizia) e
    se você escolhe com qual mão deve acender
    [estamos no sagrado


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    ::CURITIBAS::

    Carlito Don Matta
    Fundacentro Andakari
    Calçados e esportes
    Piercing cirúrgico
    Bolsa colegial
    [de couro 39,90 Na verdade, um dia
    Seja de nós dois
    Ainda acredito
    com a aquiescência da minha pica
    na Eugênia e Castro
    Alves sem um dos pés
    Fernando
    Diniz by Paulo
    galopando.

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    ::FUNDO DO ESCURO::

    Essa bifurcação que se aproxima com uma velocidade de motocicleta
    não deixe, para minha agonia, que eu descubra a imaturidade do meu [corpo
    Dividida como caos e confusão
    de gritos de veias saltadas
    deixa vir ver o demônio que torna mínimos todos os ódios da sala somados
    Acredito, preciso
    dizer sobre essa minha
    dúvida quanto a porta dos fundos de minha casa.
    Não tenho certeza se o que vai entrar por ali um dia
    será só um espetáculo de teatro.
    Os demônios do dia NÃO estão nos perigosos desencontros mas no propósito
    que se impõe à vida, Hamlet.
    Minha sorte é que freqüento a boceta da Minha namorada

    Sabe uma história sempre citada de que o T.S. ELIOT registrou (como outros) os poemas dele em áudio? “WasteLand” dá pra ouvir aqui.
    Na versão “.au” não precisa nem baixar:
    April is the cruellest month / breeding lilacs out of the dead land

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    Um boa versão para net (ainda que resumida) de "Os Irmãos Karamazovi"
    Dizia Kolia: - Se Deus não existe...

    **

    E aqui um conto curto (Uma árvore de Natal e um Casamento) do ::DOSTOIÉVSKI::

     Dostoiévski Passeia pelo Buffet Infantil

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    Num material bom pra burro, CHICO SCIENCE fala para um tal site Afropop Worldwide sobre "his own fusion which he calls 'mangue beat'".

    Tem de baixar nosso amigo RealPlayer no link abaixo mas é de graça e o material vale a pena. Tem o Chico falando em português, inglês e apresenta algumas músicas inteiras como "Macô" e "Maracatu Atômico". Um dos links está errado. Aparece como link para 'Chico talks' mas entra material sobre um músico cubano chamado Ismael Rivera - que eu achei bem bacana tbm *rs*
    O RealPlayer aqui
    E ouve aqui

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    ::CENINHA::

    Aquele era o tipo de coisa que me deixava maluco. Num transe bastante fingido (e mal fingido) ela rabiscava (sabendo que eu não tirava o olho daquilo mas fingindo, fingindo, fingindo mal, que não percebia que era para aquilo que eu olhava) com um toco de lápis: “Walt Whitman, Salinger, Faulkner, William Blake, Rilke, Rimbaud, Dostoiévski, Raduan Nassar, Henry Miller, Georges Bataille, Eugene O’Neill, Kerouac, T.S. Eliot, Sylvia Plath, Shakespeare, W. Salomão, Kafka, Ana C. Cesar, C.G. Jung, Yeats, Nelson Rodrigues, Julio Cortázar, Clarice Lispector, Eurípides, J. Joyce, Albert Camus”, e depois, “como todos, amor, preocupa-se mais em conseguir pertencer a você do que em pertencer ao mundo”.

    Jefferson Alves de Lima, 31, São Paulo, SP, está no espaço, no tempo e em seu primeiro livro, que insiste em ainda não ter nome.


    por jeff@ig.com.br às 00h36 [   ]
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    ::SIGNO::
    A J. Campbell


    Não sou a forma última. Deixo transparecer alguma coisa
    através de mim, da minha graça simples, aterradoramente simples.
    Uma imagem que não diz ser.
    Um som singelo e incompreensível e assim
    falando diretamente de outra época.

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    ::FLANCO AOS TEUS::


    Pelo tempo e pelos olhares dos outros, senti involuntariamente envolvimentos e desvínculos que nunca tive. Esqueci do seu enterro. Houve gente chorando na calçada? Sem sentido, sem esperar o que, em frente ao velório, provavelmente? Houve conversas sobre quem iria nos carros de passeio, quem esperaria os dois coletivos recém-lavados e miseravelmente cotidianos? Então, não sem a dor que eu possa, por dúvida, estar escondendo aqui, olho que te deixei abandonar-se em uma última vez que eu não conhecia, não sabia sua - não queria ser depositário da sua miséria. Mas esse talhe não é comum e, aqui, alguém precisou ser comum por nós dois – um terceiro; ou melhor, dois terceiros porque mesmo isso esforcei-me em não dividir com você – preferi encarcerar-me na matemática infantil – olhando, se preciso, problemas como equações com enunciados sobre laranjas e bananas. Até quando é uma outra equação destas.

    **

    Ao repetir a frase, podia se notar, com clareza, que a alteração do tom indicava que parara, de súbito, para pensar no que estava dizendo: o que um homem encontra não é uma linguagem ou sua ‘voz’ mas a maneira particular e própria de tentar desmontar o que lhe está na alma.

     

    Walt Whitman, Salinger, Faulkner, William Blake, Rilke, Rimbaud, Dostoiévski, Raduan Nassar, Henry Miller, Georges Bataille, Eugene O’Neill, Tennesse Williams, Kerouac, Cassidy, Allen Ginsberg, Márcia Denser, Erasmo, Caio Fernando Abreu, Arthur Schnitzler, Somerset Maughan, John Fante, Genet, Roddy Doyle, Bukowski, Hemingway, Lawrence Ferlinghetti, Simone de Beauvoir, Gabriel García Márquez, Scott Fitzgerald, Graciliano Ramos, Quintana, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Ítalo Calvino, Fernando Bonassi, Marçal Aquino, Adélia Prado, Ana Miranda, Cíntia Moscovich, Elvira Vigna, Carlos Heitor Cony, Rubens Figueiredo, Sérgio Sant'anna, Marcelo Mirisola, Nietzsche, Paulo Francis, Sófocles, Ésquilo, Aristóteles, Platão, Sócrates, Pitágoras, Bellow, Nabokov, Thomas Mann, Italo Svevo, Hermann Hesse, João Ubaldo Ribeiro, Veríssimo, Conrad, John dos Passos, Marcel Proust, Marguerite Duras, Gogol, Tchecov, Plínio Marcos, Borges, Piglia, Mempo Giardinelli, Rubem Braga, Heiner Müller, Sam Shepard, Neruda, Virgínia Woolf, Octavio Paz, T.S. Eliot, Sylvia Plath, Shakespeare, W. Salomão, Kafka, Ana C. Cesar, C.G. Jung, Yeats, Nelson Rodrigues, Julio Cortázar, Clarice Lispector, Eurípides, J. Joyce, Albert Camus, Rubem Fonseca, Connan Doyle, Vargas Llosa, Goethe, Leminski, Mishima, Becket, Grotowski, Poe, D. H. Lawrence, Ernst Cassirer, John Milton, Dante Alighieri, Fernando Pessoa, George Orwell, Jack London, Dalton Trevisan, Lima Barreto, Eça de Queirós, Gustave Flaubert, Oscar Wilde, Aluísio Azevedo, Alváres de Azevedo, Baudelaire, Ovídio, Virgílio, Homero, Camões, Tobias Wolff, Tom Wolfe, Bierce, Ray Bradbury, Nelson Blond, Léon Bloy, Marcel Schwob, H. G. Wells, Nathaniel Bierce, May Sinclair, Gilbert Chesterton, Ellery Queen, Infante D. Juan Manuel, Lord Dunsany, Eden Phillpotts, Robert Stevenson, Arthur Machen, O. Henry, Casares, John Steinbeck, Robert Musil, Alphonse de Lamartine, Alfred de Vigny, Victor Hugo, Honoré de Balzac, Sainte-Beuve, Félix Arvers, Charles Cros, José-Maria de Heredia, Paul Verlaine, Tristan Corbière, Lautréamont, Georges Boutelleau, Germain Nouveau, Jules Laforgue, Jean Moréas, Miguel de Cervantes, Leon Tolstói, Charles Perrault, Edmond Rostand, François Villon, Jean de la Fontaine, Rabelais, Jacob Grimm, Wilhelm Grimm, Christian Andersen, Lewis Carrol, Ivan Turguéniev, Asimov, Ionesco, Zola, Kant, Alexandre Dumas, Ernesto Sábato, Alessandro Manzoni, Emily Bronte, Aldous Huxley, Charles Dickens, Gabrielle Colete, Jonathan Swift, Henri Fielding, Giovanni Bocaccio, Truman Capote, Graham Greene, Umberto Eco, Marguerite Yourcenar, William Golding, Roland Barthes, Petrarca, Bocage, Lorenzo de Medici, Pierre Rosnard, Fraçois de Malherbe, Moliére, Racine, Heinrich Heine, Gérard de Nerval, Gautier, Tennyson, Robert Browning, Lisle, Musset, Murger, Rosseti, Meredith, Emily Dckinson, Suly Prudhomme, Mallarmé, Derouléde, Willian Ernest Henley, Paul Bourget, Rudyard Kipling, Apollinaire, Stefan Zweig, Duhamel, Francis James, Blaise Cendrars, Federico Garcia Lorca, Alcayaga.


    por jeff@ig.com.br às 00h34 [   ]
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    ::NOTÍCIA DE UM AMOR NEGOCIADO::

    Uma esquina mergulhada
    Na luz azul e negra da noite
    [putíssima
    Dos dois lados da calçada
    Fechou as portas de aço
    Piscando para os passos
    que deslizam rua abaixo

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    por jeff@ig.com.br às 00h32 [   ]
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    ::A LITTLE POEM...?::

    Estou pronto para a troca de cartas
    Você é foda
    Nunca soube dessa invenção de Musa
    (o que é um lago surgido da pegada de um cavalo que voa?)
    mais que uma Pálida Dancinha para Sapatinhos e todo o cetim
    Mas você me faz pensar repentinamente em você
    E tenho gostado de ler as ruas enquanto desço
    e, de súbito, olho as portas e mijo nos cantos pela sua alegria
    Deve ser mesmo bom ventar amável pelo mundo
    Lá está o presente, imediatamente, em uma inapreensível,
    sublime e velha música
    Talvez, não, eu não tenha ouvido até então, do início ao fim,
    a curta pergunta sobre a possibilidade do gozo
    Imagino que essa passa a ser minha nova dúvida
    A anterior era quando (e se?) percebemos a loucura pondo as quatro mãos
    por dentro dos calcanhares
    Esquece. Eu vou mentir, enquanto seus cabelos caem copiosamente
    pelos ombros, se me perguntar se foi para você que
    escrevi isso
    Freqüento os homens que estiveram por aqui antes de mim
    E o som da palavra ouvida através do tempo comido pelo tempo
    A mesma palavra, o mesmo som e homens diferentes
    Qual o maior castigo entre todos, velho sábio de Petersburgo?
    - A maior entre todas as delícias: estar vivo, Jasão.
    Por meu lado, eu vou dominando a técnica da minha cada vez mais bem dosada imitação do páraquedista e do imbecil chinês
    Com você resoluta e divertidamente foda


    por jeff@ig.com.br às 00h29 [   ]
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    ::ANARQUIA EM DOSE::

    A Coca-Cola vende excesso/surplus de peso
    A Morris câncer de boca
    A Nossa Caixa briga em família
    A Avon mamãe louca



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    ::PUNK, FÚRIA, PEDRAS & PLACAS::

    A vida está nas relações
    Isso talvez seja um fraco exemplo
    de um canto muito simples
    Um camarim com dois sofás rasgados
    e rabiscos de spray pelas paredes
    A tinta dos rabiscos descascada
    e a sala é úmida, fria e cheia de manchas
    [esverdeadas pelos cantos
    Vazia, envelheceu.
    Espero a hora de perder esse tom
    de importância e tudo

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    ::INFERNAL ALMA TRANQÜILA::
    3ªversão

    As personagens são caricatas, Clarice.
    O incêndio em sua cabeça, esse é largo.
    Olha aqui. Quero fazer de você personagem.
    Ela, esquecida de sustentar um sorriso,
    amedrontava a coragem dos suicidas
    com o fio de gilete entre suas gengivas,
    por assim dizer.
    Ou ainda, ela é o tipo de gente que quando
    você pergunta, ei, você tem um guarda-chuva
    na sua casa? Ela responde que sim. Mas, sabe Caulfield,
    quando você vai ver, é uma porcaria de um
    guarda-chuva quebrado e rasgado que qualquer
    filho da puta já teria atirado aquilo no lixo
    há séculos.
    Agora, como penso com o receio da primeira pessoa,
    como cômodos entulhados de sapatos
    sem seus pares e dias frios
    vistos por dentro dos prédios abandonados,
    não quero armar um final para que você se ajuste
    e pareça longe das plataformas dos trens
    _cotidianas, silentes e mal varridas.
    - Queria sair de mim; e descobrir, realmente,
    que estou em uma contradança com o limite.
    Talvez aí esteja sua maior personagem, Clarice.
    É vaga a sensação de que não há sentido
    em entender, mas assaltou-me ontem mesmo,
    aqui, durante a incompreensão.
    A idéia de não estar em lugar algum do tempo,
    ou ao menos um lugar a que se possa olhar inopinadamente,
    me deixa, veja você, eufórico: o sem-sentido, quando
    não aparece como um par de asas, acaba comigo.
    Você é um lugar no tempo, eu quero dizer.
    As suas inseguranças foram engolidas pelo disforme Cronos

    de cabelos cansados com a louça cor-de-rosa do banheiro
    e os minutos das mulheres congeladas em preto e branco
    no calçamento de chapéus e bolsas.
    A você, eu ofereço pedaços de programas de TV,
    trechos de músicas no rádio, notas de revistas,
    parágrafos de livros e indicações, das mais divertidas,
    de filmes, DVDs, discos, exposições, peças de teatro e
    dança que “merecem” ser, ou são a fim das contas,
    conferidos.
    Ouço, hoje, algo uivando em mim, cantando para cima.
    O que você tem aqui não é uma poesia. Sou eu próprio.

    Bem resumido, o “creio que se deva saber controlar
    as experiências, até as mais terríveis,
    como a loucura, a tortura... E se deva
    saber manipular com uma mente lúcida
    que lhe dê forma (S.P.)” não é em nada uma má idéia.
    Vamos resumir a coisa assim, nesse ponto. Dou
    meu tempo para você comprar flores,
    quantas quiser, enquanto eu posso distrair-me
    tentando olhar o que é isso tudo.
    Associando cheiros com sexo,
    entrego-me à camaradagem e à orgia das mulheres.
    Arriscando tudo, já que fatalmente um dia vamos morrer, madame.
    Queriam elogiar a vida, madame, e não queriam a dor
    que é necessária para se viver, para se sentir e
    [para amar
    Mas não fico nostálgico (isso há pouco tempo)
    tão facilmente. Despeço-me das coisas antes.
    Me ocorreu um exercício de colegial. Feche os olhos. Escuta:
    o desafinado canto de sereia que carregue
    os puros, os comedores de luz e o vigor de sua pele verde-oliva,
    para a demência e a mansidão.
    O niilismo não é mais incômodo, imprecação
    ou estratégia.

    Esse meu maldito tom de carta mas
    olha aqui. Prefiro investir desperto sobre o mundo.
    Meu corpo que comporte minha decisão
    com um ritmo que conseguir.
    Ia dizendo uma coisa boa no limite com o ruim,
    Como as divagações de espelhos que lhe escorreram por dentro.


    por jeff@ig.com.br às 00h27 [   ]
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    Entrou faz pouco no projeto carioca "Paralelos" um continho mais antigo, de 2002: ::Que se Foda o Homem do Gol a Ar 86::. A iniciativa dos meninos (Augusto, Claudinei e sócios) é bem boa. Depois, dá uma deslizada até lá.


    por jeff@ig.com.br às 00h22 [   ]
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    ::LUME A RIMBAUD?::

    O poeta é o assaltante do fogo ou não é nada.
    Mas Deus querido!
    Ele sempre foi ladrão de cavalos.
    O Dragão no Príncipe! Que furada, que furo!
    Canto isso com a certeza de um oráculo que anuncia
    [pena e dó do escuro.


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    ::ESQUINAS::

    Vou te deixar três palavras para quando falar de mim:
    o louco, o palhaço, perigo
    Ontem à noite pus as três na mesma frase (abrigo).


    por jeff@ig.com.br às 00h19 [   ]
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    ::INVENÇÃO DE UM TEATRO DE PÁSSAROS PARA O SOL::

    O profundo silêncio é a mais terrível e extasiante aproximação do que não se conhece. No teatro, estivemos no sagrado. Diante de um altar e ossos eu vou te mostrar o que é o medo. É justo que te ponhas a caminhar sob o sol brasileiro às dez horas de uma manhã radiosa e dances uma grande roda sob o som da vida. É justo que saibas que hei de te revelar o que vi e o que há depois da morte. Neste punhado de pó inerte, não te comova, não há princípio ou fim e não há beleza, não há. Não há conclusões, confirmações, um velho antigo como os mineirais. Não te comova, não há um reino. Não há as três formas da matéria. Não há uma árvore santa. Leões mansos como crianças, amplos e infinitos campos de grama. Satisfação, infâmia, nascimento, desejo, veracidade, perdão, equilíbrio, decadência, indiferença, fortuna, amor, despeito, dor, crença, volúpia, autocontrole, caridade, covardia não há. Não há o impoluto, não há a pureza. Não há os sete sábios, ar, água, fogo, terra, não há a chuva, o incêndio ou a colheita. Não há as 300 cabeças e em cada uma destas dois pares de cabeças e seus pares de olhos que se multiplicam até o infinito. Caravanas cobertas por lã, flores nos cabelos queimados pelo sol, em passo sereno, parando em pórticos, a sombra engolindo a música, um planeta dentro de um círculo de luz e noite que se repete, a 500 quilômetros por hora, e que assim leva todo um dia, o Tempo não há. Não há a queda, e não há a redenção. Aguilhões da tortura, a loucura enredando calcanhares, montanhas e vales vermelhos, correntes, mármores, a forja de armas, o descontrole, a danação, o desequilíbrio, o desassossego não há. Oásis da carne, deleite, carinho e instintos não há. Os sexos não há. Um som único e soprado por um dia ensolarado te chega aos ouvidos. O que há é o desconhecido no mais absoluto, profundo e silencioso desconhecido. No instante da morte no sangue, a vida torna-se uma idéia tão indefinida como a é para a criança que acaba de chegar a ela nesse instante. O que vi depois da morte foi exatamente o mundo que vi em 01 de junho de 1975. Dança, dança, dança deliciosamente hoje. Não te comova, dança a vida, uma grande roda sob o sol e o som desse milagre.

    jeff@ig.com.br


    por jeff@ig.com.br às 00h16 [   ]
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    ::OS MORTOS UM DIA PASSARAM A SER ENTERRADOS::

    A sombra dentro da sombra lhe faz soar. Vibre. Um pouco de música. O que é coisa e nunca vai poder se transformar em nada poderia lembrar desfiladeiros no dia em que seu trono caiu. Tanto quanto você acredita que lhes é seiva e destino. Ao Tempo a memória é sempre tão indiferente. Estivemos aqui há dias. Eu, você de papel nas mãos e um outro como nós. Quantas gerações foram arrastadas, precipitadas e quantos homens se extinguiram no mais profundo e escuro silêncio do Tempo. Vivemos uma semana de sete dias e há de se perceber na tarde que termina hoje quais são os trabalhos desses homens para verter em mito a essência de seu mais comum minuto. Você próprio se faz de homens e seus inumeráveis gestos dentro de períodos de sete em sete dias que se sobrepõem. A sombra dentro da sombra diz tanto de ti quanto ti mesmo. A sombra de um homem, com a sombra de uma escova penteando a sombra de um cavalo. É seu corpo num universo de corpos tão assustadores e, seu fascínio, promete um desconhecido tão sedutor que por ti se curvou o homem, misterioso irmão dos mortos, jovens e heróis. Os sete dias que Deus levou para construir o mundo, o mito de um pequeno minuto, é um generoso passo no desfiladeiro que colocaram abaixo de ti no dia em que deram queda à seu trono. Há a origem de um pássaro que não existe mais e é nela que você começa. Os homens passarão a nascer, para devolverem seu trono, esquecidos que os mortos possuirão alma enquanto existirem vivos, vontade ilimitada.
    por jeff@ig.com.br às 00h13 [   ]
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    ::O ESCURO CAMINHO PELA ÁGUA QUANDO HÁ ASAS::

    Veio num golpe a frase de um velho livro alemão

    4ª versão

    - É a queda colocada no fim. Mantém a vida mergulhada nessa única tarde. Também repito palavras cuja amplidão nunca senti. Seguiremos, como na ocasião em que descobrimos a euforia, o que (aguardo a crise de remorso) faz feliz. Escuros, chuvosos, desatentos de qualquer maneira, deixaremos essa tarde. Apesar de seus repentinos sons e relâmpagos já nos enternecer. Ainda que você, você não tem uma poesia nas mãos. Sim, você tem a mim próprio. E ainda que você possa adivinhar a correnteza devastadora (a crise de remorso é certa) por trás de tanta suspeita, estamos tentados a convidá-la a ficar. - Goze seu próprio desencontro. Existe a chance de estarmos mergulhados no mais insidioso ardil do inconsciente. Puxados pelo que há de sombra e luz na ausência do autocontrole. Lutando e sendo de maneira cônscia um par de garras dilaceradas, esgueirando-se no fundo de um mar silencioso. Estivemos perdidos e um velho nos encontrou: - Mire a ruína. Não nos mostrou (não, isso jamais) a lástima que é a vida: - É preciso a própria experiência. Não trazíamos ouvidos inventivos e satisfeitos. Para nossas ermas e longas ruas, Tudo o que não tem vida continuava como é, infinito. Precipitaria a queda, um convite de casamento demoníaco de imprudência e desejo? Fomos aonde sua experiência há de nos levar. Sabemos. – Encoste a consciência contra suas sombras úmidas. - É preciso a própria experiência. Ainda assim, não há a dizer. Ainda assim, não há a dizer. Seguir, seguir pois lá fora esperam os campos escuros pelo brilho do fogo. - Pondere. Não existe um porquê fugir de revelações. Uma massa de corpos nus inventando Capas de chuva e sapatos de camurça preta. Calças que se ajustam na cintura. Ombros e colos atraentes. Ah, a Luxúria, ela. Por sobre o lago branco partem um a um todos. É preciso a própria experiência.


    por jeff@ig.com.br às 00h10 [   ]
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    ::SOBREVÔO ANTES DA VOLTA::

    E pensar que eu estava exatamente nesse mesmo lugar há anos e as coisas giravam de outra forma. Quando entramos nessa mesma clareira com lama até a testa, havia uma calma e, para nossa surpresa, fincada no meio da névoa, uma lanchonete.

    Era a última coisa que iríamos imaginar a 80 mil metros do chão mas havia uma lanchonete inacreditável e vazia, com bandeirinhas azuis e amarelas, embalada em música pura. Foi o que espantosamente nos fez correr de imediato de volta ao alguém que imaginávamos que éramos.

    Era essa a cena: nossa desconfiança tinha escapulido pelo meio do morro e praticamente foi possível vê-la voando e assobiando em nosso encontro (Pérsio, Marques, Botinha e eu).

    Nossa pressa era a de voltarmos aos gestos que sabíamos. Procurávamos reencontrar às cegas o mesmo tom de voz que ouvíamos pular pela nossa boca durante todos os dias. Se fosse possível, ouviríamos um abre e fecha de gavetas dentro de nossas cabeças como o de quem procura reunir o mais rápido que pode o que quer do próprio passado.

    Em uns a respiração automaticamente saltou para o peito enquanto a cabeça pendeu para frente ou para trás. Em outros, a vista foi consultar o relógio ou a mão involuntariamente apalpar um telefone no bolso. Nosso próprio andar e a maneira como chutávamos o chão passaram de festeiros para uma impostura gozadíssima.

    Tudo durou cerca de meio segundo. Mas a verdade é que esperei Marques, que caminhava a meu lado, adiantar um pouco e passei gargalhar sem soltar um único ruído. Deveria tê-lo feito a plenos pulmões.


    ----#----#----#----#----#----#

    ::CENINHA::

    Aquele era o tipo de coisa que me deixava maluco. Num transe bastante fingido (e mal fingido) ela rabiscava (sabendo que eu não tirava o olho daquilo mas fingindo, fingindo, fingindo mal, que não percebia que era para aquilo que eu olhava) com um toco de lápis: “Walt Whitman, Salinger, Faulkner, William Blake, Rilke, Rimbaud, Dostoiévski, Raduan Nassar, Henry Miller, Georges Bataille, Eugene O’Neill, Kerouac, T.S. Eliot, Sylvia Plath, Shakespeare, W. Salomão, Kafka, Ana C. Cesar, C.G. Jung, Yeats, Nelson Rodrigues, Julio Cortázar, Clarice Lispector, Eurípides, J. Joyce, Albert Camus”, e depois, “como todos, amor, preocupa-se mais em conseguir pertencer a você do que em pertencer ao mundo”.

    Jefferson Alves de Lima, 30, São Paulo, SP, está no espaço, no tempo e em seu primeiro livro, que insiste em ainda não ter nome.


    por jeff@ig.com.br às 23h59 [   ]
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    ::O AMOR E O FLUXO ENCOSTADO::

    Havia alguma coisa serena comigo que me fazia desconfiar que era para mim o prato suculento que a noite preparava. Ela tinha se grudado a mim de uma maneira que eu podia ouvir seu estômago engrolando. Podia ouvir um ditirambo sendo cantado por aquele estômago oco e fluente como uma máquina lubrificada em azeite e bastava consultá-lo, perscrutá-lo, colocá-lo sobre o colo para saber o que era.

    De qualquer forma, a certeza brilhou num tipo de taça branca e dourada que ela trazia debaixo dos seios. Uma oferenda que haveria de subir para as honras boiando em vinho. Elogiei o conjunto tentando levar o lugar inteiro para a dormência e chupei o bico de cada um deles alternadamente. Num murmúrio elogioso, ela disse que eu sabia como tocar uma mulher e sorriu se vangloriando de ter conquistado um segundo lugar no concurso daquele mês da revista CUS.

    Fiquei tão interessadamente admirado nesse nome da revista que disse a ela que "morreria de entusiasmo" se um dia pudesse olhar a primeira colocada. Ela voltou a sorrir, agora enviesado, e falou calmamente: "é aquela dali". Olhei a mulher que ela apontava girando como um pavão flechado no pescoço diante de uma pequena platéia e disse que, naturalmente, era uma brincadeira. Estava caído de quatro por ela. Profundamente apaixonado, revelei até para mim mesmo.

    Ela sentou sobre o meu colo e disse que eu era... Fiquei esperando a surpresa. "Você é um filósofo muito famoso". Desmanchei a cara de atenção que fazia para ela numa gargalhada explosiva. Não entendia o acréscimo do "muito famoso", talvez uma delicadeza, mas quanto ao filósofo toda a cara dela dizia que, positivamente, o que falava era: "Você pode ser tão louco em cima de uma cama quanto um ‘filósofo’ ou tão completamente louco quanto o sujeito corcunda que veio aqui na semana passada trazido pela própria mãe para perder a virgindade aos 32 anos".

    Eu ria, ria e ria fartamente, de maneira descontrolada, incapaz de não deixar que ela conduzisse a coisa como quisesse. Mesmo meu pensamento mais mesquinho e gatuno sabia que seria gulosamente alimentado diante de uma mulher alucinadamente delirante como, para mim, Márica ia se apresentando.

    Pedi a ela que mostrasse um pouco mais de seu "gostoso corpo" e ela afastou dançando a sua doida e saborosa dança do sexo. Usava seus mil braços e todo o dourado de praia que a velha Parvati desejaria articular se trabalhasse atravessada de consciência sobre onde e o que estava pisando.

    Como ela jogava a cintura numa curva invertebrada na direção da minha mão, aproveitei para descer sua calcinha um pouco e descobri o início de uma boceta encantadora. Ainda estava depilada mas havia pequenos pontos pretos e ásperos em volta do sedoso volume de pêlos num desenho retangular. Como fazia os doidos e contínuos movimentos de sua dança, ia ficando com a calcinha cada vez mais e mais próxima dos joelhos. Toda a estratégia ardilosa dela era estar generosamente em movimento e escorregadia.

    Havia puxado-a para perto do rosto e beijava longamente onde a luz refletia percebendo que o cheiro forte que ela tinha não me deixaria esquecer que aquilo era uma boceta apesar do parentesco com uma foca ensaboada. O cheiro me deixou doidamente excitado e insinuei a ela que deveríamos terminar aquilo ou eu começaria a mastigar a gola do meu próprio casaco. Quando pulamos para dentro do quarto, mal esperei que tirasse a chave da porta procurando lhe arrancar o biquíni.

    Cada centímetro dela parecia ter sido criado ontem e não nos 30 milhões de anos que o Homem sofreu para abandonar a forma de peixe com o simples fim de ver a própria ruína como fiscal do serviço sanitário, gerente de negócios, curador de artes plásticas ou uma coisa mais rasteira que tenha conseguido.

    Enfiei para dentro dela e assimilava maciamente os solavancos que sua boceta embalava numa reta maluca tocada por um tropel de cervídeos, tirsos, gritos de ulu-ulu-ulu e peles de leão. Sonora e magicamente lembrei do cu e, sem transição, pulei dali para chupar ela por trás.

    Ela arrebitava a bunda o mais que podia sentada nos calcanhares e quando deslizei a língua, foi que aconteceu a coisa mais louca a que eu já assisti. Ela se lançou num profundo e maluco vôo de uma poesia que mesmo um escritor experimentado como Rilke levaria horas para tirar da sombra.

    Sei que não deveria fazer isso e estaria acanalhando com ela se tentasse fazê-lo (a situação e o inesperado dos termos que ela usava jamais voltam), mas um trecho do que ela cantava marcou-me a fogo e na essência era isso:

    A fuga está cavalgando esquinas, avenidas, praças, praias, picadas, alamedas enfurnadas e dentro em pouco chegará a teus próprios olhos. Ela passa correndo sob grossos vestidos de lã, leva no cabelo, ruivo e queimado de sol, galhos e folhas colhidos no outono e flores da primavera. Passe ela, a fuga, com toda felicidade e ruína que tem a oferecer. Dos quais se limita a conduzir o brilho e o golpe

    Sentia-me plena e confusamente esmagado de susto e alegria diante daquilo. Quem mais em toda a face da Terra teria já visto ao menos um milisegundo daquilo? Retardo o quanto posso para escrever e valorizar a certeza que tinha: calculava, com toda paciência e calma, que seria o alvo da inveja tão logo apontasse a cabeça na rua. Sentia-me ensolarado, banhado por uma orgia de assobios e líquidos enquanto chupava cu e boceta e ela ia em frente:

    Oh! Ainda vive o homem primordial roído de dúvida. Na madrugada escura à sombra de mesas, cadeiras e quadros pretos na parede derramados sobre o negrume intocado em que talvez tenha começado o teatro

    As palavras rolavam procurando um chão onde morrer e fecundar precisamente como as sementes de trigo de que João falava que, caso não apodrecessem, permaneceriam sem produzir um único fruto. Ela se lançava canto adentro ajeitando cu e boceta. Quanto a mim, esperava ver ao menos uma embarcação de cobre e madeira despencando do céu e arrebentando o telhado.

    Quando levantei os joelhos e pedi que se girasse um pouco mais para que eu pudesse entrar, parou com o canto. Disse a ela que, por favor, não parasse e ela me perguntou "não pare o que?". Não termine agora. Continue com os vôos, disse a ela. Já sentando na cama, tomada de impaciência, ela tornou a perguntar do que era que eu estava falando. O canto, não pare o canto. Vamos. Continue. É lindo, disse a ela. Ela disse que honestamente não sabia o que eu falava. Vesti minhas roupas e só voltei a ver Márica três dias depois.

    Quando me viu, soprou que mais tarde falaríamos que agora estava com um amigo. Estava evidente, para quem quisesse enxergar que não, NÃO nos falaríamos. Quando encontrei meu amigo Pérsio Pato escapulindo de um vaudeville na Brigadeiro Luís Antônio e contei a ele o que tinha acontecido, ele se engasgou, ruminou e uivou dizendo que a maluca tinha "pintado uma noite azul revirando em tinta vermelha". Dizia, aos saltos, que se um dia, "por acaso, ambicionasse" ser estraçalhado que procurasse votar àquele quarto com ela.


    por jeff@ig.com.br às 23h57 [   ]
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    ::DIÁRIO DE ETERNIDADE::

    Oh, hoje me preocupei com a morte
    Vi um antigo peruano amando o Sol como se fosse sexo
    Não tem nada de assustador nisso, bebê
    Aquele grão que João falou, se não morrer fica infecundo
    Só as crianças que não vão vingar (e os velhos, bebê), se preocupam com a morte
    Oh, hoje me preocupei com a morte
    Uma serpente de asas brancas, dois poços alagados e uma roda de crucificação em chamas
    Oh, hoje sonhei com a morte
    A eternidade é uma invenção tão velha
    Um presente que não muda
    Sempre presente e idêntico a si mesmo
    Um presente eterno e sem imaginação
    Meu Deus! A morte, por favor, algum dia desses


    por jeff@ig.com.br às 23h52 [   ]
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    ::MÔNICA ESCAPOU (SOMENTE) DA AUSÊNCIA DO VERMELHO::

    Essa sensação de voltar, refazer, repassar é uma dorzinha cega. De cara, parece um desejo febril de encontrar um outro dentro do barro. "Suspender o tempo, né? Voltar pro útero ou entrar num caixão, né?" (a própria Mônica, inacreditável).

    Segundos depois é o mais sensato e sereno passo a ser dado. Como que para se ver a tormenta a única possibilidade é vê-la de fora (e NÃO fumando um cigarro com as costas contra a esfinge edipiana, que tinha peitinhos escorregadios como os de Mônica).

    Mas de qualquer forma, enquanto ninguém se entende aí, uma confusão esquisita vai preenchendo cada menor e fodido minuto. Fazendo de tudo um inferno gelado e cansativo a menor e primeira olhada. É em tudo menos de sexo o que eu digo. Esse "estar prensado, de costas contra o mundo"?

    Eu tentei poças de sangue e o que me vinha era um drama de quem entra e sai pela0 porta do metrô. Que bosta, Jesus. Meu próprio vazio parece com algum avacalho que já li. Uma disposição para revirar o mundo de dentro para fora, sem nenhuma nota de dinheiro que possa comprar uma colher para isso é "estar prensado contra o mundo"?

    Eu não sei mais sobre o que eu estou falando, Mônica. Seu nome foi trocado por esse por uma profunda covardia minha. E se você quisesse saber "o que é que eu queria dizer com isso"?. E se você acreditar nisso?

    Espero que você não leia isso, nunca, e nunca saiba que foi por sua causa que num dia, quente e delicioso como eles (graças a Deus querido) geralmente acontecem no Brasil, Mônica, que eu gastei tempo procurando ser claro e sincero.

    Você sabia que morreríamos afogados se decidíssemos seguir o litoral. Nós dois iríamos até o fundo, até sentirmos as lágrimas confirmarem que estávamos abraçados e morrendo. Você percebe como isso é "dramático". Justamente como nós dois descobrindo o sexo entre beliscões e cusparadas. Morreríamos em cada novo passo; e você tinha receio de parecer a "sabe-tudo da Glaslite" se dissesse isso. E ia parecer mesmo.

    O mar tem esse mistério, você sabe Mônica, porque há corpos e histórias que ninguém mais consegue contar, esquecidos com ele. Eu acho que fui terrivelmente covarde quando penso a coisa toda com essa clareza, que não é minha e talvez não seja mesmo bem-vinda.

    É bem capaz que eu fizesse de tudo para deitarmos mais uma vez juntos, que eu passasse a mão pela sua barriga e te descobrisse sem calcinha e aguardasse quando, você relaxando os músculos das coxas, gozássemos um gozo que não é só possível mas galopante e de um cheiro adocicado, crescente e enlouquecedor.

    Você talvez tenha mais medo da loucura do que eu. As Bíblias, todas elas, são tão medrosas quanto quem avança até elas, Mônica. A vida não tem nenhum sentido. Me desculpa se eu pareço violento e enterrado em verdades.

    Mas você procurou dar sentido para sua vida como quem, de cabeça baixa, começa tocando uma música que vai surgindo pouco a pouco até que espera que ela exista sozinha, por si própria e com o sentido que você descobriu nela. A vida não tem sentido nenhum, Mônica.

    Eu amo esse minuto que vai, depois de um milhão de minutos, começar agora. E é profundamente só isso. Eu acredito que não precisava dizer isso mas já fui tão confundido (e mal confundido) que eu prefiro que seja assim: saiba que nessa aventura ininteligível, de indivíduos morrendo isoladamente (G.B.), há um homem que te ama sobremaneira.


    por jeff@ig.com.br às 23h49 [   ]
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    ::PAISAGENS DE SILÊNCIO::

    Alguma coisa ia acontecer depois que o carro finalmente acabou de passar - provavelmente guiado por um bêbado que terminou deixando à cidade o próprio silêncio.

    A luz azul da rua, a silhueta avançando sobre seus 35 metros, a fachada despinguelando, a calçada pintada a tinta óleo em outra noite, o barulho cadenciado dos sapatos contra o cimento. O que eu duvidava é se alguém (sabe Deus quem) iria gritar “GRAVANDO”, com a inconfundível expectativa. Ou ato pronto para começar. Tudo isso logo quando havia acabado de decidir que eu começava uma noite de prazer.

    E agora: "Algo como Quinhentas e Cinqüenta Páginas em Breves 70 Metros", que não é um melhor segundo título ainda que seja a melhor maneira de adiantar a minha própria culpa destrutiva. O que digo é que (fodam-se as sutilezas) sabia que era o abençoado caso de antecipar a realidade da minha morte.

    Aliás, há pouquíssimas semanas, Charles Olekisiuk me disse que tornou a galopar próximo da morte para continuar caminhando numa calçada ordinária (possivelmente como essa). A coisa era (não só imaginar uma reação fora de qualquer medida mas) se dispor, sinceramente, a segurar uma garganta como se fosse o último elo com a vida; um jogo filha da puta de adrenante que ele contava com a imaginação e o delírio de um ator.

    Na verdade, eu sabia muito pouca coisa sobre o tal jogo mas talvez soubesse mais do que sobre mim mesmo. Não digo do fato de que é, invariavelmente, nas ruas o lugar em que sinto-me bem.

    Eu não tenho muito problema com liberdade como Rosa, a irmã caçula e suculenta de Charles. Mais de uma vez ela relacionou nossa masturbação (nós dois de cócoras e de frente um para o outro) com uma “problemática do gozo” _ ainda que, de cócoras diante da Árvore de Natal, ela circulasse seus dedos pela boceta simplesmente puxando a calcinha para o lado com uma delícia infinita enquanto falava o "sabe o que eu acho disso?".

    Ainda assim, essa era a única coisa que eu (nem ela) não podíamos pedir: justamente que gozássemos. Até quando chegava o momento em que não aguentávamos, e fazíamos: ela soltava um verdadeiro espirro e eu corria e gozava - respirando forte e um pouco zonzo sobre as pernas - sobre sua calcinha.

    Mas o que dizia desconhecer era sobre minha voz, por exemplo. Não sei praticamente nada dela, apenas o recado na secretária eletrônica: eu uso uma entonação arredondada e, forjadamente, espirituosa. Talvez, bem resumido, tudo fosse só uma coisa: Simone; Jo; o cheiro de Marcela; a clocharde de Cortázar e seu enfadonho (a despeito de seus fogos) jogo da amarelinha; Hermes Ruas; dra. Marta, a dentista; Charles Olekisiuk (pronuncia-se olequissiúqui, quem é Charles Olekisiuk?) e a desconfiança de que alguém (Deus?) assistia a um homem a 1h40 da manhã descobrindo a obrigação de se culpar por que acredita que goza.

    Era isso e (por que, não?) tudo o mais visto e ouvido condensados em menos de segundos e de repente, uma idéia maluca me passou pela cabeça: os dois, no encontro dos 35 metros em que a silhueta e eu chegaríamos, tomados de euforia e êxtase e rodando de braços abertos (como é prática no velho cinema nacional) e por isso C. Gustav Jung e por isso uma simbologia noturna e por isso essa maldita noite.

    O próprio Pérsio Pato, ia esquecendo de Pérsio Pato, garante que definitivamente, enquanto um homem não se impor alguns momentos de espera (nada de música, nada de livros, nada de televisão, nada de teatros, nada de jornais...), simplesmente, se deixando perceber a própria respiração como quem espera algo de inaudito - o ser humano - não há mínima possibilidade de felicidade.

    Enquanto não houver isso - diz Pato - é provável que se carregue o peso da impressão de que uma humanidade inteira nasceu num pesadelo eterno. Ou, numa palavra, que o gozo fica melhor numa descrição do que na vida de alguém. É bastante difícil concordar com Rosa – me dizia Pato. Mesmo que eu não deva, esse é o tipo de situação que me intriga. A humanidade vive metida num pesadelo eterno.

    Bem. Eu não havia conseguido entrar no apartamento. L. tinha deixado a chave na posição de meia volta. Visto à luz de Pérsio (o Vozeirão) gargalhando e girando dentro do bar com um bilhete de loteria na mão (ele tirava e voltava a metê-lo na carteira, fez isso umas 80 vezes, garantindo que iria buscar o prêmio na segunda-feira; além de comprar metade da face da Terra para Deus e todo mundo), isso era uma coisa que não chegava a ser um problema.

    Eu ainda ria enquanto usava apenas o fura-bolo e o cata-piolho agachado como um perito na frente da porta. Aquilo era uma razão nova e gostosa para meias de seda, bocetas depiladas e o drinque grátis que eu nunca bebia nem antes nem depois de entregar a plaqueta de latão e ir procurar o hotel. Era mais que um motivo novo. Era um motivo real.

    Vozeirão dizia que (como sonhamos o dia inteiro) por três vezes num único dia você volta a ter o mesmo sonho. Eu não sei como foi que descobriu isso, mas, que eu achei interessante, isso era visível na maneira como eu pedia para ele repetir a história.

    O fato é que eu não sei de onde eu conhecia aquela luz azul, aquela fachada caindo em pedaços, o som dos sapatos contra o cimento, o Santana branco vindo e quase subindo a calçada e aquela silhueta avançando a pé. Mas sabia que estava condenado a olhar para a morte como a uma ampulheta.


    por jeff@ig.com.br às 23h46 [   ]
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    ::O DESTINO VIAJA DE ÔNIBUS::

    Ele falava de maneira inspirada e eu ia atrás, seguindo-o, até que ele se perdeu pelo caminho e eu me vi completamente sozinho num lugar em que nunca havia ido antes. Até então estávamos sentados um de cada lado do corredor e, assim, repentinamente, me via diante de um bonito vai e vem de guarda-sóis, cascos de barco pintados de azul, longuíssimos trechos de grama nascendo na areia e um céu em que não havia uma única nuvem.

    A cada passo que dava à direita ou à esquerda, ia surgindo uma nova barraca de madeira amarela ou uma suculenta mamãe em seu biquíni branco carregando baldinhos de brinquedo num passeio renovador e radioso.

    Quando fui dar por mim perambulando pelas pedras e sentindo já o calor do mar sob meu pé, era a hora de entrar e pegar o puto. Tive de agir pelo reflexo porque só percebi que a hora tinha chegado por Ado passar a perna esquerda para a frente da direita e avançar num susto pelo corredor. Tudo durou um nada.

    Ele não esperou o puto acabar de passar da porta do apartamento. Puxou-o por trás da cabeça para o meio do hall e, com ele ainda desequilibrado, eu soltei um soco que entrou bem encaixado entre o nariz e a boca. Ele voltou a cabeça para trás com a pancada e levou um segundo murro que não o deixou cair para trás mas para o lado sobre a parede do hall. No chão, foi servido fartamente de socos e chutes entre o estômago e a testa.

    Era uma briga tão velha quanto desinteressante de se contar aqui. Não valeria a pena. Não valeria, mesmo.


    por jeff@ig.com.br às 23h20 [   ]
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    ::SOBREVÔO ANTES DA VOLTA::

    E pensar que eu estava exatamente nesse mesmo lugar há anos e as coisas giravam de outra forma. Quando entramos nessa mesma clareira com lama até a testa, havia uma calma e, para nossa surpresa, fincada no meio da névoa, uma lanchonete.

    Era a última coisa que iríamos imaginar a 80 mil metros do chão mas havia uma lanchonete inacreditável e vazia, com bandeirinhas azuis e amarelas, embalada em música pura. Foi o que espantosamente nos fez correr de imediato de volta ao alguém que imaginávamos que éramos.

    Era essa a cena: nossa desconfiança tinha escapulido pelo meio do morro e praticamente foi possível vê-la voando e assobiando em nosso encontro (Pérsio, Marques, Botinha e eu).

    Nossa pressa era a de voltarmos aos gestos que sabíamos. Procurávamos reencontrar às cegas o mesmo tom de voz que ouvíamos pular pela nossa boca durante todos os dias. Se fosse possível, ouviríamos um abre e fecha de gavetas dentro de nossas cabeças como o de quem procura reunir o mais rápido que pode o que quer do próprio passado.

    Em uns a respiração automaticamente saltou para o peito enquanto a cabeça pendeu para frente ou para trás. Em outros, a vista foi consultar o relógio ou a mão involuntariamente apalpar um telefone no bolso. Nosso próprio andar e a maneira como chutávamos o chão passaram de festeiros para uma impostura gozadíssima.

    Tudo durou cerca de meio segundo. Mas a verdade é que esperei Marques, que caminhava a meu lado, adiantar um pouco e passei gargalhar sem soltar um único ruído. Deveria tê-lo feito a plenos pulmões.


    por jeff@ig.com.br às 19h02 [   ]
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    ::O ESQUEMA DO ESPORRO::

    Depois do cigarro, Pérsio Pato ainda tinha corrido por uma rua escura e fedorenta o bastante para sentir o Diabo no corpo. Era um romântico com um livro sem capa num bolso. Talvez empreendesse um romance com os próprios colhões pelo outro.

    No banheiro, o jorro tinha ganho alguma coisa de político. A tinta tinha escorrido numa tira de quase um metro do meio da porta até o chão. Ainda apertou os nós de dois dedos na perna da calça antes de dar um tapa nas costas do garçon.

    Desenganadamente, tudo ia rolando como se a invenção daquela cabeça trouxesse em si uma mitologia particular e, por que não?, destruidora. Para garantir que a coisa em si seguia por aí, tinha certeza de que era o cosmo quem embaralhava o seu ser roído com disposição.

    Involuntariamente, ri como um louco quando Pérsio passou a fazer a pantomima do que  imaginava ser o poetinha concreto arriando a cueca e enfiando as paronomásias, paramorfismos e a picaretagem de citar James, Miller ou cacete que fosse rabo a dentro.

    A verdade é que ele sabia que, com as coisas piorando, iria desmontar engenhosamente os pesadelos que mais prezava e ganhar sentido diante de outros - normais, insatisfeito e inseguros como ele.


    por jeff@ig.com.br às 18h48 [   ]
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    [ O Tempo, Este de Cabelos Cansados ]



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